Interldio de Amor
(Penny Jordan)
Copyright 1986 by Penny Jordan
Originalmente publicado em 1986 pela Mills & Boon Ltda.
Titulo original: Return Match
Publicado originalmente pela Editora Nova Cultura em 1987 - Julia 403
Digitalizao: Polyana
Reviso: Andresa



      RESUMO: Lucy caminhou decidida at o velho solar, palco de tantas tristezas e alegrias. L dentro, tudo lembrava os dias de louca paixo que passara ao lado
de Kevin. De repente como se ressurgisse do passado, uma voz a chamou: "Lucy..."

     CAPTULO I
"No sei se  sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
 a que ansiamos. Ali, ali
A vida  jovem e o amor sorri."

      - Mas por que temos de mudar do solar para a casinha da fazenda? Protestou Carol, os lbios carnudos, iguais aos do pai, tremendo ligeiramente.
      Como era de se esperar, Fanny olhou a filha por um instante, depois voltou o olhar para a enteada, numa splica. Lucy suspirou, afastando o cansao, a irritao
e disse:
      - Carol, agora que o papai foi embora, no podemos mais viver aqui. O solar pertence  outra pessoa.
      Havia sido um longo dia para Lucy.
      Na verdade, um longo e cansativo ms, desde a morte do pai deles aps um fulminante ataque cardaco. Ela podia entender o que havia por trs da teimosia da
meia-irm: apenas um profundo receio de que seu pequeno mundo estivesse vindo abaixo, e acariciou aquele rostinho corado, tentando sorrir.
      Que ironia Carol voltar-se para ela e no para a me, refletiu. Porm, no era de se admirar. Antes de morrer, seu pai deixara evidente que o destino da famlia
estava em suas mos, e no nas de Fanny, sua madrasta.
      - No  justo! Oliver resolveu aliar-se  irmzinha, cruzando os braos numa atitude de protesto. - Se voc fosse um menino, no teramos perdido o solar.
Voc o teria herdado. Contendo uma lgrima, Lucy olhou o garoto:
      - O solar sempre foi legado ao herdeiro homem mais prximo da famlia, Oliver. No h como mudar a situao.
      O irmo torceu o nariz, contrariado.
      - Mas... Eu sei.
      A resposta relutante do irmo fez o corao dela se apertar. Seus olhos encontraram os de Fanny por um segundo e, ao verem a culpa e o sofrimento estampados
neles, desviaram-se rpidos.
      Lucy sentia-se como que conspirando com um crime srdido, e a atitude da madrasta s agravava esta sensao.
      Gostaria que o pai, George Martin, no a houvesse sobrecarregado com o fardo de suas confisses antes de morrer. O problema era que havia feito isso, e colocado
em seus ombros uma responsabilidade com a qual ela no tinha certeza de poder arcar. A promessa que a obrigara a fazer de cuidar de Fanny e das crianas, podia aceitar.
Mas aquele segredo, que apenas ela e a madrasta dividiam...
      Olhou a sala repleta de caixotes de mudana e depois para o irmo, que agora fitava o cho, resignado.
      At o ms anterior, acreditara que Oliver fosse filho do primeiro casamento de Fanny com um membro do parlamento local. Contudo, sabia que o menino era, na
verdade, filho de George, concebido durante um caso que o pai dela mantivera com Fanny, s que Fanny ainda era uma mulher casada.
      Na poca, George era livre para se casar com Fanny. Porm ela no quisera se divorciar, temendo um escndalo: o marido acabara de ser eleito para o parlamento.
      Por ironia do destino, o prprio Henry Willis havia pedido a separao definitiva, aps seu romance com a secretria tornar-se pblico. Deste modo, George
e Fanny puderam ficar juntos, aps um intervalo adequado de tempo.
      Todavia, Fanny continuou a insistir para que a verdadeira paternidade de Oliver, ento com quatro anos, no fosse revelada. E ela prpria, Lucy, no ficara
a par do segredo at que, tomado por uma onda de amargura, poucas horas antes de sua morte, George lamentara o fato de Carol no ter sido a primeira a nascer de
seu casamento com Fanny.
      Se o destino no houvesse sido to cruel em armar aquela trama, ele no seria obrigado a privar Oliver de seu direito: a posse do solar.
      Abismada com a revelao, Lucy ficara tentada a dizer que Fanny era a nica responsvel por Oliver no herdar o solar e no Kevin Bradford, apontado como o
herdeiro homem mais prximo. Todavia, mantivera-se calada diante do estado deplorvel do pai.
      Aps o enterro, Fanny viera procur-la aos prantos, implorando para que jamais revelasse a verdade sobre o garoto. No poderia suportar o escndalo, dissera,
e, mais uma vez, Lucy havia concordado.
      Seu sentimento de culpa e revolta, no entanto, foi amainado quando pde conversar com o advogado do pai. Este a fizera ver, com muita sensatez, que, mesmo
que Oliver houvesse herdado o solar, no poderia desfrutar dele por muito tempo.
      Em breve, o casaro teria de ser vendido. Seu estado de conservao no era dos melhores. O telhado precisava de reparos, assim como as enormes janelas, e
era entristecedor ver o quanto as salas e quartos, antes to luxuosos, pareciam gastos e sem vida.
      Era uma propriedade grande demais para ser mantida com os parcos recursos que possuam. O proprietrio precisava ser um milionrio, o que seu pai estivera
longe de ser.
      Para todos os efeitos, a casa da fazenda, onde ficariam dali por diante, era ampla e confortvel, alm de ser muito mais fcil de se manter.
      Ela, a filha mais velha de George, e a que tinha morado no solar por mais tempo, era a que menos relutava em deix-lo. Talvez por ter acompanhado todos os
problemas que o velho casaro proporcionara ao pai.
      A parte mais velha do solar era elizabetana, a fachada imponente escondia uma infinidade de corredores e quartos. Um dos Martin, no entanto, resolvera ampli-lo
ainda mais, construindo, num dos lados, uma ala totalmente nova.
      Era uma construo deslumbrante, que se mantivera de p ao longo de geraes.
      Agora, contudo, o telhado avariado permitia que a umidade destrusse aos poucos o teto de gesso trabalhado: a deteriorao do solar acontecia to devagar que
s h pouco tempo o pai de Lucy se dera conta de seu estado.
      Desde ento, a antiga propriedade passou a dar muito mais dor de cabea do que felicidade.
      A casa era muito mais adequada para um hotel ou escola, do que para ser o lar de uma famlia to pequena.
      No tinha dvidas de que o primo, Kevin Bradford, se livraria da manso to logo lhe fosse possvel. Lembrava-se bem de sua nica visita ao solar e do riso
irnico e depreciativo que lanara ao mesmo.
      Haviam se encontrado apenas esta vez, doze anos atrs, e no tinham se dado muito bem. Achara-o antiptico e arrogante e, sem dvida, ele tambm no se deixara
levar pelos encantos dela.
      Na poca, Lucy ainda tentava superar o choque de ter perdido a me num acidente de carro. Sempre fora mais chegada  me do que ao pai, e Kevin, embora ela
no soubesse, na ocasio, havia sido levado ao solar a fim de que no continuasse presenciando as interminveis discusses dos pais  vspera do divrcio.
      Lucy suspirou, aborrecida. Agora era tarde demais para se arrepender das desfeitas e humilhaes que, como cmplice, obrigara o primo Kevin a passar.
      Porm estava arrependida h algum tempo. No por ele ser o herdeiro do pai dela, mas por outro motivo. Com a maturidade, percebera que sua atitude com Kevin
durante aqueles tempos no havia sido das mais corretas. Sentia o corao pesado ao lembrar-se de como inventara intrigas mesquinhas encorajada por Fred, um outro
primo. Reconhecia o quanto havia sido fraca e sem personalidade, deixando-se influenciar pela maldade e pela inveja.
      Contudo, embora fosse tarde para arrependimentos, nada a impedia de tentar reparar os erros passados. Apesar da antipatia que George sempre sentira pelo sobrinho,
e que parecia ter passado para os filhos e esposa, Lucy estava determinada a tornar as coisas o menos complicadas possveis para o primo americano, e dar a ele todo
o apoio de que necessitasse.
      Ela no havia perdido nada. Desde pequena sabia que no herdaria o solar. Mas Oliver, a quem seu pai protegera demais, parecia no se conformar com a situao.
      Lucy tinha certeza de que a omisso do nome de seu verdadeiro pai no o prejudicaria em muita coisa. Na realidade, talvez fosse at bom. Nos ltimos dois anos,
detectara sinais visveis de que o mimo exagerado do pai e a completa incapacidade de Fanny em estabelecer qualquer forma de disciplina, transformaram-no num garoto
desagradvel e egosta.
      Felizmente, Lucy gostava muito dos irmos para consider-los um fardo.
      Fanny, entretanto, era outro problema. Embora costumassem se dar bem, s vezes achava irritante ter uma madrasta que se comportava mais como uma criana do
que como mulher adulta.
      - Eu no quero ir para a casa da fazenda. - Os lbios de Carol tremeram mais uma vez, as lgrimas brilhando nos olhinhos castanhos.
      Ela e Carol eram muito parecidas, refletiu. Ambas possuam os olhos escuros do pai e, contrastando com eles, cabelos loiros. Sem falar no perfil clssico e
elegante qu, segundo as fofocas da famlia, havia feito com que Amlia Martin, antiga parente do sculo dezoito, fosse pedida em casamento pelo prncipe regente.
      E por Amlia Martin ter recusado tamanha honra a famlia jamais recebera um ttulo de nobreza. O quanto havia de verdade nessa histria, Lucy no sabia dizer.
Talvez, quando pesquisasse um pouco mais, pudesse descobrir.
      Um ano e meio atrs, resolvera examinar os papis e documentos do cl dos Martin, tentando colocar alguma ordem na biblioteca, e foi ento que tivera a idia
de escrever um livro baseado na histria dos Martin. Com a posse de tanto material e informaes, existia a possibilidade de escrever at mais de um, o que seria
discutido na semana seguinte, quando fosse a Londres conversar com os editores.
      Havia tido sorte, sem dvida. A famlia da me dela sempre estivera ligada  rea editorial. Seu primo Fred era scio numa editora. No da que ela trabalhava,
mas em uma outra. Tinha sido o pai dele que a havia recomendado, para o desgosto do filho, claro... Fred adoraria v-la dependendo dele, refletiu Lucy, satisfeita.
      Tinha superado sua paixo por Fred h muitos anos e tudo o que restara fora a conscincia do mau-carter, do sujeito sem princpios que ele era. Vez ou outra,
Fred ainda tentava flertar com ela, mais para ver sua reao do que por qualquer outra razo. Era extremamente convencido, e nunca se conformara em ter perdido uma
admiradora.
      - Carol, por favor, pare com esse barulho! Minha cabea est doendo! O protesto de Fanny, a arrancou de seus devaneios, fazendo-a perceber que Carol chorava
muito.
      Oliver chutava com raiva um dos caixotes de mudana e Fanny levou a mo  cabea, num gesto dramtico:
      - Lucy, acho que vou me deitar...
      Sabendo que se sairia melhor com a madrasta fora do caminho, Lucy no fez objees. Ensaiou um sorriso, ao mesmo tempo em que enxugava o rostinho de Carol
e impedia Oliver de continuar a descarregar sua raiva nos objetos da casa.
      - Ora, vamos, no vai ser to ruim! Tentou confortar a irmzinha, logo que Fanny subiu para o quarto. - Vai adorar viver na fazenda.
      - Eu sei, mas e Harriet? Choramingou Carol, lembrando-se do pnei.
      Lucy sorriu, alisando os cabelos loiros da irm.
      - Harriet tambm vai gostar, pode ter certeza. Ter um lindo cercado.
      - Mas Richard falou que no poderemos ficar com ele...
      Richard era um dos scios da firma de advocacia do pai recm-falecido. Lucy ficou aborrecida. H vrios meses vinha dando a entender que queria muito mais
do que uma simples amizade com ela. Contudo, s depois da morte de George  que sugerira um compromisso mais srio.
      Lucy perguntou-se se Richard estaria consciente de que ela sustentaria Fanny e as crianas naquela nova condio, pois parecia no simpatizar com Fanny nem
com nenhum dos irmos. Lucy sabia que a antipatia era recproca, pelo menos no que dizia respeito  Carol e Oliver.
      De qualquer modo, no existia a mais remota possibilidade de que se casasse com Richard. Falando claramente, no estava apaixonada e sexualmente ele no a
atraa... Alis, como a maioria dos homens que conhecera. Tanto que tinha chegado aos vinte e cinco anos sem possuir uma nica aventura relevante de amor para contar.
      Certa vez, pouco antes do segundo casamento de George, sentira a necessidade de uma vida mais livre e com menos responsabilidades. Quando sugeriu que ia deixar
o pai e ir viver em Londres, Fanny implorou que ficasse.
      Desde a morte da me, Lucy administrava a casa. No por escolha, mas por necessidade. Fanny agarrara-se a isso, alegando que no saberia cuidar do solar to
bem quanto ela. Ento, apesar da desconfiana em relao aos motivos da madrasta, concordara em ficar, tentando no sentir-se culpada pela perda da prpria independncia.
      A partir da, sua vida se transformou. Fanny no movia um dedo para ajudar nos afazeres domsticos, e nem mesmo para cuidar dos filhos. Levava sua aparente
fragilidade como bandeira, apoiada por George. Assim, muito cedo, Lucy viu sua vida gravitar em torno do solar, de um casal de crianas e de muitos afazeres.
      A deciso de tentar escrever era conseqncia das privaes que sofrera.
      Sem sombra de dvida, as horas que passava sozinha na biblioteca, fazendo pesquisas e mais pesquisas, eram as melhores que experimentara desde a sada da universidade.
      No entanto, era provvel que perdesse at mesmo isso, a menos que Kevin permitisse usar a biblioteca.
      Conhecia-o pouco e no sabia o que esperar. Suas lembranas estavam repletas de animosidade que brotara entre ambos no primeiro minuto em que se viram. S
conseguia lembrar do sorriso irnico estampado em seu rosto.
      A aparncia de Kevin no lembrava os Martin de modo algum. Era moreno, possua os olhos cinza, e o sotaque americano ajudava-o a torn-lo ainda mais diferente.
      Relembrando o desastroso vero em que se conheceram, Lucy sentiu remorso. Pobre garoto! No devia ter sido fcil ficar com parentes estranhos, de hbitos e
costumes alheios aos seus. Seu desprezo em relao a tudo que o solar tinha a oferecer devia ser mais uma atitude de defesa do que agressividade.
 claro que, aos doze anos, Lucy no pudera compreender isso. Ela via apenas que Kevin caoava de tudo o que ela gostava, agindo sempre com aquele ar de superioridade
irritante. Tanto, que Lucy no relutara em aliar-se a Fred para atorment-lo.
      Fred... O quanto o achava bonito e inteligente! Quando falava, todos paravam para ouvi-lo, sua voz era agradvel e perfeita, e no arrastada como a do primo
recm-chegado da Amrica!
      At o corte do cabelo de Kevin era esquisito. Fred o havia ridicularizado, humilhara-o com requintes de crueldade. Contudo, ela tinha se arrependido profundamente
pois sempre fora contra sua natureza ferir as pessoas daquele modo.
      "Pobre Kevin! Lembraria dela?" Lucy se perguntou. Bem, no adiantava se preocupar. Teria oportunidade de se redimir de seus erros quando ele chegasse. Fred
poderia reclamar contra o solar passar para as mos de Kevin, porm ela apoiaria o primo americano e deixaria Fred falando sozinho.
      Carol havia parado de chorar e observava Lucy, esperanosa.
      - No vamos ser to pobres a ponto de no podermos manter Harriet! Apressou-se Lucy: - Richard est enganado.
      - Vai se casar com ele? Indagou Oliver, fitando-a, curioso.
      - No, de forma alguma.
      Os olhos escuros do irmo encheram-se de alvio. Oliver havia sido o mais chegado ao pai, do que Lucy no se dera conta at saber da verdade. E talvez fosse
o que mais sentisse a falta da figura paterna. Quem sabe Kevin no se interessasse por ele, pois com certeza devia ser casado e ter seus prprios filhos...
      Lucy suspirou. Como sabia pouco sobre ele! Diante de todo o tumulto e ansiedade causados pela morte de George, tivera pouco tempo para se informar mais sobre
o primo. Havia esperado que ele comparecesse ao enterro, porm, em vo.
      Perto do fim, o pai dela tinha reclamado que Kevin jamais se interessara sobre herana que ia receber. E ela, como que, para fazer justia, replicara que,
na verdade, o primo nem sequer tinha tido uma chance para isso.
      Embora suas lembranas de Kevin no fossem boas, ela possua esperanas de que, quando ele chegasse, pudessem manter um bom relacionamento, j que viveriam
muito prximos um do outro e que na certa Kevin deveria ter amadurecido tanto quanto ela...
      Apesar de tentar raciocinar com lgica, Lucy no pde evitar a apreenso. No sabia quando Kevin iria chegar, portanto iria deixar o solar logo que lhe fosse
possvel.
      Tambm estava sendo meticulosa quanto ao que deveria levar. Apenas alguns mveis que haviam pertencido  sua me e nada mais. Apesar de a casa da fazenda estar
mobiliada, e embora precisasse de alguns reparos j que at h pouco tempo estivera alugada, sem dvida, os mveis que levaria ajudariam a compor um ambiente alegre
e familiar.
      Com a ajuda da Sra. Isaacs, uma antiga empregada, havia limpado a nova casa. Quase todos os cmodos necessitavam ser redecorados, e Lucy prometeu a si que
faria isso assim que tivesse tempo... e dinheiro sobrando.
      Porm, agora, a decorao era o que menos importava, refletiu, olhando a confuso de caixas espalhadas pela sala, preocupada com tantos objetos a transportar.
Mas isso tambm seria resolvido. No dia seguinte, os filhos da Sra. Isaacs trariam uma caminhonete e fariam a mudana.
      Da janela da sala podia-se ver o campo verde e tranqilo que cercava o solar. Lucy continuou, pensativa. Teriam a mesma vista da nova casa que, alm de tudo,
era rodeada por um belo jardim.
      Pensando melhor, concluiu que a deciso do pai de separar a casa da fazenda e uma certa poro de terra da casa principal tinha se originado do nascimento
de Oliver. J naquela poca George devia estar planejando fazer tudo o que pudesse pelo filho... E no tinha vacilado antes de despojar-se de qualquer coisa que
pudesse ser vendida do solar, uma vez que mais tarde este passaria para as mos de Kevin.
      Agora o casaro tinha um ar descuidado, de abandono, quase deserto. O que Kevin faria com ele, ela no tinha a mnima idia. Provavelmente iria vend-lo. No
conseguia imaginar outra atitude mais sensata do que esta.
      Lucy desviou o olhar da paisagem e fitou os caixotes. Havia descrito seu contedo com lpis de cera em cada um deles. Porm ali no estava nem mesmo a tera
parte do que os Martin possuram.
      Toda a riqueza da famlia, advinda do trfico de escravos e do comrcio de acar nas ndias Ocidentais, perdera-se com a Primeira Grande Guerra. Desde ento,
os Martin sobreviveram pela venda de seus pertences. Verdade que o pai dela sara-se muito bem como diretor da firma de advocacia, mas o solar devorava todo o dinheiro
que conseguia ganhar.
      Sentou-se num canto, imaginando-se na fazenda. Sabia que o advogado estranhara o fato de ela herdar a casa, e no Fanny. Todavia, isso no era difcil de se
entender.
      Seu pai tinha conscincia de que a famlia ficaria mais segura nas mos da filha do que na da jovem esposa. Que ela era, na verdade, mais uma criana a ser
cuidada. Sempre dependera do marido, e era bvio que dali por diante continuaria dependendo de algum.
      Fanny preferia passar a maior parte do tempo em Londres, em casa de amigos. De material, no possua nada, deixando que Lucy se encarregasse dos cuidados e
mesmo da educao dos filhos.
      Lucy sempre tivera um timo gnio, o que raras vezes permitia entrar em conflito com a madrasta. Porm nem sequer passava pela cabea de Fanny que uma moa
de vinte e cinco anos podia no querer a responsabilidade que lhe tinha sido imposta...
      Lucy levantou, dirigindo-se para a cozinha. Ali estava uma parte do solar da qual jamais sentiria falta, disse intimamente bem-humorada. Grande e antiga, era,
alm de tudo, pouco iluminada e mal-equipada, ao contrrio da cozinha da casa da fazenda que dispunha de todos os eletrodomsticos e era ventilada. Com a morte do
pai, tinha sido obrigada a dispensar a Sra. Jennings, que costumava cozinhar para eles. Fanny logo dera a entender ser pssima cozinheira, limitando-se a ajud-la
vez ou outra. Lucy no teria se importado com o fato de cozinhar, porm, assumir mais uma tarefa quando j possua tantas, teve o efeito de deprimi-la cada vez que
pisava naquela dependncia do solar.
      Esta noite tomariam apenas uma sopa rala com torradas, decidiu, numa onda de mau humor, j imaginando as reclamaes de Oliver. Diante da pobreza do jantar.
No dia seguinte poderia preparar uma refeio mais forte e apetitosa. Precisava levantar cedo e estava cansada demais para inventar grandes cardpios.
      Aquela exausto fsica e mental parecia ter surgido aps a morte do pai, agravada pela descoberta da verdadeira paternidade de Oliver. Como puderam esconder
a verdade por tanto tempo? E se Oliver descobrisse tudo um dia?
      Dizendo a si mesma que no era hora de preocupar-se com o futuro, Lucy comeou a pr a mesa.
      Carol surgiu na cozinha, parando ao lado dela.
      - A mame disse que no est se sentindo bem - a irm informou, fitando Lucy com ateno. - Pediu para jantar no quarto dela.
      Contendo a raiva, Lucy mordeu o lbio. Procurava ser tolerante com Fanny, tentando se convencer de que, afinal de contas, a madrasta perdera o grande amor
de sua vida, enquanto ela no sofrera tanto assim, uma vez que ela e o pai nunca haviam sido muito prximos. Mas, levar o jantar para Fanny na cama, j era abusar
de sua pacincia. Porm refletiu melhor e se conteve.
      Podia lembrar a angstia que a devastara quando da morte da me, a quem tanto amava, e se Fanny estava experimentando um dcimo da dor que a consumira, ento
merecia um pouco de apoio e compreenso.
      - V dizer a Oliver para lavar as mos e descer para jantar, est bem, querida? Sorriu, instruindo Carol. - Quero que vocs dois durmam cedo, porque teremos
muita coisa para fazer amanh.
      - Est bem. Ah! Eu contei para Harriet sobre o cercado novo dele... comentou Carol. - Acha mesmo que vai gostar de l, Lucy? Vai ficar com saudade do Cinders,
no vai?
      Cinders era o gato malhado que vivia no estbulo.
      - Oh, acho que podemos lev-lo conosco tambm - garantiu Lucy, reprimindo outro sorriso.
      - Mas voc disse que no poderamos levar nada que pertencesse ao solar.
      Sim, ela dissera. Contudo duvidava que Kevin se opusesse a levarem o pobre gatinho. Mesmo porque, como Carol tinha acabado de afirmar, o pnei parecia gostar
muito do gato.
      - Ele  mesmo horrvel, Lucy?
      - Horrvel? Lucy franziu a testa. - Quem?
      - Nosso primo. Esse que vai morar aqui.
      - Claro que no! Ele no  horrvel! Quem foi que disse isso?
      Era o que faltava. A ltima coisa que gostaria de ver seria as crianas hostilizando Kevin. Era bom cortar aquela idia pela raiz!
      - Foi Oliver - confessou Carol, com determinao. - E Fred quem disse a ele.
      Lucy estava indignada, maldizendo o primo mentalmente.
      - Fred s estava brincando, meu anjo. Garanto que Kevin  muito bom - disse, torcendo para que suas palavras fossem verdade.
      Os olhinhos de Carol se iluminaram.
      - E ele no vai tirar Harriet de mim?
      - Oh, querida, claro que no! Agora suba e v chamar Oliver. Lucy encostou-se na mesa, pensativa. Ia precisar de todas as energias de que dispunha para manter
a famlia unida.

     CAPTULO II
      "Talvez palmares inexistentes, leas longnquas sem poder ser.."
      Mais trs agitados dias se passaram antes que pudessem se mudar para a nova residncia. Lucy olhou a sala vazia e percebeu que nunca se sentira to exausta
na vida como estava agora.
      E no era s cansao fsico. Durante todo o tempo, Fanny alternara crises de choro com momentos em que se trancava no quarto sozinha. Ou ento demonstrava
um desejo quase histrico de ter os filhos a seu lado. Aquele comportamento estava assustando as crianas, principalmente Carol, mas Lucy tinha esperanas de que,
com a sada do solar, Fanny recobrasse a razo.
      Uma estranha melancolia a inundou quando percorreu os quartos e salas desertos, parando vez ou outra para tocar peas e objetos da moblia. Amava o solar,
mas nem por isso sofreria muito ao deix-lo. Havia crescido sabendo que este dia chegaria.
      Um pequeno sorriso curvou seus lbios quando lembrou da expresso de Fred ao saber que ela no seria a herdeira. At ento, ele sempre havia declarado que,
quando crescesse, casaria com ela. Bastou tomar conhecimento da deciso do tio para nunca mais tocar no assunto.
      Quanto tempo mais Kevin levaria para chegar? A ansiedade a punha nervosa e aborrecida. Afinal, o que temia? A posse da casa da fazenda estava mais do que assegurada
e, mesmo que Kevin quisesse despej-la, no poderia fazer isso. O fato de no terem se dado bem na infncia no deveria influenciar suas atitudes de adulto... ou
influenciaria?
      Era desconcertante perceber como o conhecia pouco. A nica coisa que conhecia a respeito dele era que a tia, me de Kevin, deixara a Inglaterra logo aps a
guerra para casar-se com um americano, e que mais tarde, havia se divorciado.
      Incomodava-a o fato de o pai nunca ter se interessado em conhecer o sobrinho, j que ele seria seu herdeiro. Contudo era bvio que mantivera esperanas, at
o fim, de que, de algum modo, pudesse evitar essa situao, passando o casaro para as mos de Oliver.
      A seu modo, o pai dela fora to fraco quanto Fanny. Entretanto, agora era tarde demais para lamentar as omisses de George.
      Lucy olhou a casa mais uma vez, com uma ponta de tristeza. Torcia para que Kevin no estivesse esperando muito de sua herana. Lembrava-se bem de que ele no
parecera nem um pouco impressionado no passado, quando ela havia se vangloriado contando sobre as escadas secretas e quartos mal-assombrados existentes no solar.
      Passando pelo espelho de moldura dourada que pendia sobre a lareira, Lucy notou que estava despenteada e cheia de p. Precisava urgente de um bom banho. No
havia mais nada a fazer, a no ser trancar as portas e janelas. No dia seguinte, ela e a Sra. Isaacs passariam o dia fazendo uma boa faxina.
      Incomodada pelos tmidos raios de sol que entravam pela janela, Lucy abriu os olhos, espreguiando-se languidamente. Sorriu ao pensar que, pelo menos nesta
nova moradia, no teria de caminhar muito para chegar  cozinha.
      Era cedo para acordar os outros e uma vez banhada e vestida, ela viu-se deliciando com o silncio e a solido. A cozinha, to arejada e bem equipada, melhorou
ainda mais seu humor.
      Enquanto bebia uma xcara de caf, repassou os planos que fez para o dia; tinha combinado de encontrar-se com a Sra. Isaacs no solar as nove, o que deixaria
para Fanny a tarefa de alimentar as crianas.
      Dando de ombros, Lucy afastou um ligeiro sentimento de culpa. Afinal, lembrou a si que no era ela a me de Oliver e Carol.
      As onze, o jeans e a camiseta que havia vestido estavam imundos e cobertos de poeira. Sentia a roupa colar no corpo molhado de suor, sem contar os msculos
das pernas e braos que doam, de cansao.
      - E melhor darmos uma parada - sugeriu a Sra. Isaacs.
      - Boa idia. Vou descer e fazer um refresco.
      Assim que ficou s, Lucy ouviu o som de um carro, o rudo pouco comum levou-a a janela. Era um imenso BMW parando bem em frente ao solar. Engoliu em seco ao
reconhecer o homem alto e moreno que emergiu de dentro dele. Kevin!
      Estranho que pudesse saber quem era de imediato, quando durante semanas tentara reconstituir seus traos de garoto sem sucesso. Trajava um terno gelo bem leve
e parecia mais um europeu do que um americano: moreno o bastante para passar por um espanhol, embora, talvez, um pouco magro.
      Enquanto observava, Lucy viu Carol aproximar-se pelo lado do solar, trazendo Harriet. Brigava com o pnei, que parecia mais interessado na relva fresca do
que nas ordens da pequena dona. Kevin caminhou na direo da irm dela, com a expresso sria do rosto suavizando-se levemente.
      Carol parou ao v-lo chegar perto, agarrando-se assustada ao pescoo de Harriet. Surpresa, Lucy observou as tentativas de aproximao de Kevin serem temidas
e rejeitadas, at que Lucy, tensa, percebeu Carol comeando a chorar. Que diabos ele teria dito  pequena!
      Voou escada abaixo, alcanando o jardim a tempo de ouvir a irmzinha soluar.
      - Voc  feio e mau! Gritava Carol.
      Kevin segurava as rdeas de Harriet, enquanto Carol tentava, sem conseguir, afastar o pnei dele. Lucy empalideceu ao ver que o rosto do primo voltara a ficar
frio e distante. Nenhum dos dois percebeu que ela se aproximava at que gritou:
      - Carol! J chega!
      Os olhinhos castanhos, marejados de lgrimas, fitaram os dela.
      - Voc disse que ele era bom! Falou, acusadoramente. - Mas ele no !
      Kevin olhava para ela, e Lucy sentiu-se envergonhada ao perceber que triste figura devia estar fazendo: a roupa imunda, o corpo todo coberto de p, os cabelos
loiros despenteados e soltos sobre os ombros.
      - Kevin! Que prazer rev-lo! Saudou, forando o sorriso que por tantos dias ensaiara.
      Todavia o sorriso desapareceu quando notou que ele no lhe retribuiu o cumprimento. Os olhos cinza, frios como gelo, a fitavam dos ps  cabea, para depois
voltarem-se para Carol.
      - Eu no estava tentando tirar o pnei de voc - falou, parecendo preocupado. - S estava querendo ser amigo dele. Me lembra um que tive quando garoto.
      Surpresa, Carol parou de chorar, os olhos se arregalando para fit-lo.
      - Verdade?
      - Srio. Ele ficava na fazenda do meu tio, e eu costumava visit-los nas frias.
      A voz de Kevin no perdera o sotaque caipira do qual ela se lembrava to bem. Por que razo ela e Fred haviam caoado dele? Na ocasio tinha sido gostoso e
soava agradvel aos ouvidos. Hoje, provocava nela uma onda de remorso. Ela havia sido m e mesquinha.
      Amargamente arrependida, Lucy percebeu que Kevin poderia ter sido um companheiro muito melhor do que Fred, que poderiam ter-se consolado, uma vez que ambos
atravessavam um momento difcil em suas vidas.
      Zangada consigo por permitir que a emoo tomasse o lugar da realidade, ela tentou interromper a conversa.
      - Tenho certeza de que Kevin no vai tirar seu pnei, Carol...
      - E por que faria isso? Ele fitou Lucy surpreso. - Afinal, j devem ter retirado tudo o que podiam do solar. O que  um pnei?
      O modo como ele a olhou, a contundente ironia em sua voz, teve o efeito de um raio sobre ela. Lucy devolveu o olhar, em silncio. No fora bem assim que havia
imaginado seu encontro com Kevin. Porm, de qualquer modo, o que poderia dizer em sua defesa?
      Engoliu em seco, olhando depois para Carol.
      - Leve Harriet para o cercado da casa da fazenda, querida, e diga  sua me que Kevin est aqui. - Voltou-se para ele, tentando sorrir. - No o espervamos
to cedo. Receio que tudo ainda esteja em desordem... Mesmo assim, ficaramos encantadas se aceitasse almoar conosco.
      Kevin ps as mos no bolso da cala, os olhos cinza encontrando os dela, de uma maneira constrangedora.
      - Ora essa, como voc mudou... Os lbios salientes curvaram-se num sorriso amigvel. - E no foi s na aparncia. No me lembro de t-la ouvido falar de modo
to gentil, doze anos atrs.
      O cinismo dele acabou com toda a boa vontade de Lucy:
      - H doze anos eu ainda era uma criana, Kevin... E havia acabado de perder minha me.
      Ao ver os olhos dele perderem o brilho, Lucy ficou zangada consigo mesma por se deixar provocar to facilmente. Que diabos havia dado nela para jogar todos
os seus planos de boas-vindas por terra?
      Baixou a cabea, tentando disfarar o calor que lhe subiu  face. O fato concreto era que esperava uma verso adulta do garoto que conhecera quando criana,
e o que via  sua frente era um homem bonito e sensual que, de comum com o Kevin que vira naquela poca, s possua o nome.
      - Quero que voc almoce conosco. - Carol a arrancou de seus devaneios, os olhinhos castanhos brilhando para ele. - Assim pode me contar sobre o seu pnei.
Como era o nome dele?
      - Mostarda.
      A ateno de Kevin foi dirigida para Carol e isto fez Lucy sentir-se deixada de lado e magoada.
      - Tem certeza de que no h problema? Ele perguntou para ela, de repente, com os olhos frios percorrendo avidamente o jeans surrado e a camiseta que lhe modelava
os seios.
      Lucy sentiu a raiva brilhando nos olhos castanhos. Para manter o autocontrole, tentou lembrar que Kevin tinha bons motivos para hostiliz-la. Mesmo assim,
olh-la daquela maneira era muito degradante.
      Respirou fundo, forando as palavras:
      - No h nenhum problema - respondeu, educada. - Vai levar uma hora mais ou menos para que o almoo fique pronto, enquanto isso posso apresent-lo a Sra. Isaacs.
Ns duas estvamos tentando limpar um pouco o solar.
      A surpresa nos olhos de Kevin durou apenas um segundo, sendo logo substituda pelo sarcasmo.
      - Quer dizer que estava fazendo faxina? Que tarefa mais desagradvel... Ou ser que procurava por mais algum objeto que pudesse levar?
      A angstia tomou conta de Lucy. Como podia ter se iludido, achando que Kevin chegaria disposto a esquecer o passado? Seu comportamento agressivo transformara-se
numa arma contundente, num sarcasmo irnico, muito mais difcil dela suportar.
      - Se est se referindo ao testamento - obrigou-se a responder com calma -meu pai vendeu apenas o que ele podia. Pode ficar sossegado. Afinal, papai sabia ser
um homem honesto.
      - Nos ltimos meses - Kevin comentou, to tranqilo quanto ela - seu pai levantou quase duzentas mil libras ao vender "o que podia", o que  uma quantia considervel
para sustentar uma viva e seus dois filhos... Ou vai me dizer que no est includa nesses interesses? Nunca lhe falaram sobre as vantagens de ser uma pessoa independente,
Lucy? O que a impede de partir?
      Ela empalideceu. Mesmo que Carol no estivesse presenciando a cena, no conseguiria ter dado uma resposta  altura. Como poderia contar a ele sobre a promessa
que fizera ao pai de manter a famlia unida e cuidar no apenas das crianas como da prpria madrasta?
      - Vou apresent-lo a Sra. Isaacs..
      Lucy pde perceber o olhar gelado que ele lhe lanou quando se recusou a responder  provocao. O que mais poderia fazer?
      Como poderia explicar a atitude do pai sem revelar o segredo de Oliver?
      Manteve uma atitude serena enquanto o apresentava  velha governanta, hesitando antes de oferecer-se para mostrar-lhe o solar. A Sra. Isaacs era tima pessoa,
mas muito faladeira, e Lucy no queria que a regio toda ficasse sabendo da inimizade entre ela e Kevin.
      - Posso acompanh-lo na vistoria do solar, se quiser.
      - Acho que me lembro bem da casa - disse ele de modo educado, recusando o convite. - Mesmo assim, obrigado.
      Kevin a estava dispensando, pensou Lucy. Ele deixava bem claro que no a queria por perto.
      - Vejo voc no almoo, ento - respondeu, sem conseguir disfarar seu ressentimento, vendo os lbios dele abrirem-se num sorriso vitorioso.
      Como imaginava, quando chegou  casa da fazenda, Fanny ainda estava na cama. Irritada, Lucy indagou se as crianas haviam comido. Lamentando tanta irresponsabilidade,
subiu para o quarto a fim de avisar a madrasta sobre a chegada de Kevin.
      - Como ele ? Perguntou-lhe Fanny.
      - Alto, moreno e muito bonito - respondeu, atrevida, percebendo que tudo o que dizia era verdade. Mais do que isso. Havia em Kevin uma fora, um carisma, incrivelmente
atraentes.
      Atraente? Kevin? Devia estar ficando louca. No era possvel que fosse se envolver logo com aquele homem.
      Levou quase uma hora para convencer Fanny de juntar-se a eles no almoo.
      - Vai ter que conhec-lo mais cedo ou mais tarde - lembrou  madrasta. - No quer que as pessoas fiquem comentando, no ?
      Foi uma boa desculpa. Fanny ergueu o queixo, petulante, com medo do que os outros poderiam dizer.
      - E o que vamos oferecer a ele, Lucy? Indagou preocupada. - Esses americanos esto acostumados a comer muito bem...
      - Pode ficar sossegada. Temos aspargos na horta, salmo fresco e morangos com creme de leite.
      Fanny fez um ar de pouco caso e Lucy suspirou, deixando o quarto.
 uma hora em ponto, Kevin bateu  porta. Lucy, que trabalhara sem descanso, disposta a no deixar que ele olhasse o almoo com tanto desprezo como o fizera
com ela, ficou no hall, pedindo  Carol que fosse abrir a porta.
      - Leve-o para a sala junto da mame - instruiu - e depois v chamar Oliver l em cima.
      Havia estado to ocupada, que no tivera tempo nem mesmo de tomar um banho e trocar de roupa.
      Aps dar uma ltima olhada no molho que estava cozinhando para acompanhar o salmo, voou escada acima, para tomar uma ducha rpida.
      Seu guarda-roupa no era dos mais sofisticados, j que seu estilo de vida no o exigia, porm as poucas roupas que possua eram boas, discretas e muito bem-cuidadas.
Sem vacilar muito, apanhou um vestido de seda rosa, de saia rodada e alcinhas. O tecido macio caa-lhe ao redor do corpo, dando-lhe um ar gracioso, e a cor enfatizava
a pele bronzeada, tornando-lhe os cabelos mais claros e os olhos escuros e brilhantes.
      No havia tempo para maquilagem. Correndo a escova pelos fios dourados do cabelo, calou um par de sandlias e lanou-se porta afora, quase colidindo com Oliver
no topo da escada. Sentiu o corao se apertar. Ele parecia aborrecido, a expresso to idntica  do pai, que se perguntou como nunca havia percebido a verdade.
      - O que foi?
      - Eu no quero almoar - respondeu Oliver, amuado. - No quero falar com ele. No quero ele aqui, Lucy!
      - Talvez no, mas ele est aqui e tem o direito para isso - ela replicou, com delicadeza. - Oliver, entendo como se sente, mas deve tentar compreender que
Kevin  o proprietrio de tudo. No quero que ningum pense que est ressentido com o fato de ele ter herdado o solar, no ?
      Oliver balanou a cabea, de um lado para o outro devagar.
      - No.
      - timo. Agora vamos descer para almoar. Fiz um peixe delicioso. Foi o coronel quem nos deu.
      -  mesmo? O rostinho srio do garoto se iluminou. - Pena que eu no estava em casa quando ele veio. Assim ele podia ter me contado mais histrias da guerra.
      Lucy ficou contente ao ver que a tristeza do irmo desvanecia.
      - Ora, vai ter vrias oportunidades de conversar com ele sobre o assunto, pode ter certeza.
      Propositadamente, no deixou que Oliver entrasse na sala sozinho, guiando-o  sua frente, com cuidado, enquanto abria a porta.
      Fanny estava no sof e, para sua surpresa, Kevin sentara-se ao lado dela, muito prximo, o brao pousado nos ombros de Carol enquanto todos olhavam um lbum
de retratos no colo dele.
      - Oh, a est voc, Lucy. - Fanny parecia um pouco nervosa. - Estamos mostrando a Kevin as fotografias do meu casamento... Nossa, como voc est bonita! No
 sempre que a vemos de vestido, Kevin. Deve ser para homenage-lo. - Fanny sorriu para ele, tmida, e Lucy ficou encabulada.
      Sabia que a madrasta no falara por malcia, mas a frase soara extremamente constrangedora.
      - Bem, eu no poderia sentar  mesa usando aquelas roupas sujas, no ? Foi o que disse, empurrando Oliver na direo deles para apresent-lo.
      Ficou feliz ao ver Kevin oferecer a mo para o garoto, tratando-o como o homem da casa. Oliver pareceu satisfeito e Lucy sentiu alvio.
      O irmo podia ser intratvel quando queria, resultado do mimo e da falta de firmeza dos pais. Ela tentava neutralizar aquele comportamento hostil tanto quanto
podia, consciente de que, s o tempo, s quando Oliver fosse para a escola, encontraria disciplina. E a seria obrigado a comportar-se, quer gostasse quer no.
      - Querida, acho melhor irmos para a mesa - sugeriu Fanny. - Pode servir o almoo?
      Ela estava contente por ver Fanny sair de sua infindvel depresso e se interessar por alguma coisa. Satisfeita, Lucy concordou, deixando-os na sala e indo
rpido para a cozinha.
      Todos j estavam sentados  mesa quando chegou com os aspargos.
      - Aspargos? Comentou Kevin enquanto ela o servia. - Comida tpica inglesa... De onde?
      - Da horta da fazenda - enfatizou Lucy, deixando claro que no era do solar. Na verdade, a horta da casa da fazenda era muito mais variada e bem-cuidada, herana
de um dos inquilinos, que havia sido um dedicado jardineiro.
      Para sua satisfao, viu o rosto de Kevin corar diante do comentrio.
      - Lucy! Fanny fitou-a com um ar de reprovao. - Tenho certeza de que Kevin no se importaria nem um pouco se tivssemos pegos os aspargos do solar. - Ela
sorriu.
      O mesmo sorriso que costumava lanar ao marido e que sempre tinha um bom efeito, refletiu Lucy, ao ver Kevin corresponder. No entanto, tinha grandes dvidas
se j no era hora dela mesma comear a usar algumas tticas femininas...
      Nenhuma vez Kevin sorrira daquele modo to atraente e significativo para ela. Alis, jamais sorrira, de jeito algum.
      - Humm, est uma delcia - ele comentou, olhando para Fanny que enrubesceu e abaixou os olhos.
      Oliver, sentado ao lado de Lucy, franziu a testa ao ouvir o elogio:
      - No foi a mame quem fez a comida - disse, categrico. - Lucy  quem cozinha.
      Ela pde sentir que Kevin a fitava, admirado, porm recusou-se a devolver o olhar, concentrando-se no prato. Quando ergueu a cabea, percebeu que Fanny no
estava nada satisfeita com o comentrio do filho.
      - Pobre Lucy... disse, olhando para a enteada. - Tem trabalhado tanto ultimamente. Tenho estado to angustiada que receio no ter feito nada para ajudar.
      Por um momento, Lucy teve mpetos de lembrar a madrasta de que, desde que se casara, no mostrara nenhum interesse pelo solar. Contudo se conteve, no adiantava
nada criar uma discusso estril.
      - Vou trazer o restante do almoo - falou, controlada, recolhendo os pratos e dirigindo-se para a porta.
       Kevin alcanou-a antes dela, abrindo a porta a fim de dar-lhe passagem. O brao dele roou em seu corpo e deixou-a perturbada. Lucy prendeu a respirao,
sentindo um arrepio percorrer a espinha. Era como se tivesse levado um choque.
      - O-obrigada - gaguejou, afastando-se dele to rpido quanto lhe foi possvel.
      O resto do almoo passou montono. Kevin e Fanny conversaram todo o tempo, Lucy porm preferiu no juntar-se a eles nas observaes que faziam. Kevin pareceu
gostar do salmo, olhando-a, satisfeito, mas ela manteve-se distante.
      - Tem visto Fred nestes ltimos dias?
      A pergunta a pegou de surpresa e, vendo diante de si imagens de doze anos atrs, corou.
      - Fred est sempre por aqui - Fanny respondeu por ela, sorrindo, maliciosa. - Embora ela sempre negue, acho que Lucy tem certa atrao por ele...
      Lucy ficou tensa, olhando a madrasta com olhos suplicantes.
      - Fred  um rapaz muito popular com as moas - continuou Fanny inabalvel. - Principalmente depois que assumiu os negcios do pai. Conhece a participao dele
na editora Holker? Ele ajudou muito Lucy com o livro, no foi, querida?
      Lucy teve vontade de morrer. Era muito fcil imaginar a que concluso Kevin iria chegar depois do infeliz discurso de Fanny.
      - Foi meu tio quem me recomendou  Bennet, no Fred - defendeu-se, nervosa. - E j no o vemos tanto assim - acrescentou, olhando para Kevin - embora ele aparea
por aqui de vez em quando.
      Ele ignorou a explicao.
      - Quer dizer que est escrevendo um livro? Estou impressionado, Lucy - comentou com falsa admirao. - Sobre o que ?
      Como se tambm houvesse percebido a ironia por trs das palavras de Kevin, Oliver respondeu por ela.
      - E sobre a famlia Martin. E Lucy passa bastante tempo na biblioteca lendo livros. O dela vai ficar bom quando estiver terminado.
      Fanny riu, indulgente.
      - Francamente, Oliver, querido! Ele idolatra essa irm! Disse, balanando a cabea. - s vezes fico at com cime. Tambm, as crianas tm passado tanto tempo
com ela... E,  normal, morando aqui, na casa dela.
      Um silncio pesado caiu sobre eles, enquanto Lucy fitava a madrasta, incrdula. Seria possvel que Fanny se ressentisse do fato de ela ter herdado aquela casa?
Franziu a testa, chocada.
      - Conte-me mais a respeito do seu livro.
      O pedido de Kevin pegou-a de surpresa mais uma vez, fazendo-a engolir em seco.
      - No h muito que contar - falou, constrangida. - J est quase pronto. Na semana que vem irei at Londres discuti-lo com os editores.
      - E  sobre o qu? A histria dos Martin, como disse Oliver?
      - No exatamente, embora eu tenha usado documentos e dirios da famlia como base. E um trabalho de fico, apesar de ter conseguido dar a ele uma estrutura
bastante realista.
      Kevin olhou-a de uma maneira estranha e, nervosa, Lucy percebeu que se deixara levar por seu entusiasmo quando falava de seu projeto.
      -  claro que, se no quiser que eu use a biblioteca do solar daqui por diante, entenderei perfeitamente - acrescentou, com frieza.
      - Muito generoso da sua parte.
      O tom seco na voz dele a fez corar ao perceber o quanto suas palavras haviam soado orgulhosas e arrogantes. Lembrou-se de como ela e Fred haviam caoado do
sotaque americano de Kevin. Ele estava apenas se desforrando das humilhaes que sofrera naquele vero.
      Doa pensar que Kevin no sentia nada por ela, a no ser desprezo, e que provavelmente riria na sua cara caso ela tentasse se desculpar.
      Foi com alvio que o viu se levantar e se despedir.
      - Tenho que ir a Winchester ver os advogados - ele explicou. - Parece que h ainda alguns detalhes para serem acertados.
      O sorriso que deu foi dirigido a Fanny, no a ela. Surpresa, Lucy estava desapontada.

     CAPTULO III
      "... Sombra ou sossego dem aos crentes. De que essa terra se pode ter..."
      No resto da semana, Lucy tomou o cuidado de evitar ao mximo os arredores do solar a fim de no se encontrar com Kevin. Carol, no entanto, via-o com freqncia,
e passara a t-lo como dolo e amigo.
      George Martin nunca fora o tipo de pai carinhoso com os filhos, de modo que, toda vez que Carol iniciava uma conversa com "Kevin disse...", Lucy sentia-se
constrangida. - Ser que sentia cime? E se tivesse... do qu? Ressentiria-se do fato de a irm estar transferindo a carncia afetiva para Kevin? Ou Carol substitura
Kevin pela figura do pai que jamais havia tido?
      Kevin morava no solar a cinco dias, quando Fanny anunciou que passaria o dia em Winchester. Lucy a fitou por sobre a xcara de caf.
      - Quer ir com o meu carro? Indagou, solcita.
      - No, obrigada. Kevin vai me levar.
      Devagar, ela baixou a xcara, sem tirar os olhos do lquido escuro. Pelo que sabia, ele no vinha  casa da fazenda desde a sua primeira visita, o que significava
que Fanny tinha ido ao solar. E no havia comentado nada.
      Uma onda de mgoa a inundou. Sempre se dera muito bem com a madrasta, apesar dos temperamentos desiguais de ambas, e nunca poderia imaginar que Fanny pudesse
esconder algo dela.
      - Quero conversar com Kevin a respeito dos bens das crianas - continuou a madrasta na defensiva. - Afinal, ele  o chefe da famlia, nessa circunstncia.
      O chefe da famlia? O que Fanny estava querendo dizer? Lucy sabia o quanto ela podia estar confusa, porm no era possvel que acreditasse que Kevin lhes devia
aquele tipo de responsabilidade!
      - Ele foi muito atencioso e compreensivo - acrescentou Fanny. - E vai me levar para ver o Dr. Patterson, para que ele possa me explicar tudo.
      - Mas, Fanny, o Dr. Patterson j fez isso!
      Philip Patterson, o advogado da famlia, os havia visitado vrias vezes, antes e depois da morte de George, e explicado com detalhes a vontade do pai e marido.
      - Sim, mas ele falou com voc, no comigo - declarou Fanny, de modo abrupto.
      - Fanny! Lucy exclamou, intrigada. - Voc estava comigo!
      Fanny deu de ombros, indiferente.
      - Pode ser. Porm estava to chocada com a morte de seu pai que no compreendi o que ele disse.
      Houve um pequeno silncio entre as duas, enquanto Lucy tentava assimilar o sentimento de alienao da madrasta.
      - Eu sei que no gosta de Kevin, Lucy - Fanny falou de repente - e que est magoada pelo fato de ele assumir o lugar de seu pai. Mas isto no significa que
temos de partilhar os mesmos sentimentos.
      A injustia do comentrio deixou Lucy magoada. Tanto que, por um segundo, pensou que fosse desmanchar-se em lgrimas. E no tinham sido apenas aquelas palavras
que a feriram, mas de quem elas partiram. Fanny estava enganada. Ela gostava dele.
      - Kevin sabe como se sente em relao a ele - continuou ela. - Contou-me o quanto brigaram naquele vero. Expliquei a ele que foi uma coisa bastante normal,
pois devia estar zangada com o fato de ele ser o herdeiro de seu pai.
      Lucy abriu a boca para argumentar, todavia fechou-a em seguida, engolindo um protesto. Estava brava, mais brava do que jamais estivera na vida. Como Fanny
ousava tirar aquelas concluses absurdas sobre seus sentimentos e atitudes? E o que era pior: como tivera coragem de pass-las para Kevin, como se elas fossem a
expresso da verdade!
      - Est completamente enganada, Fanny - falou, tentando se controlar. - No tenho nenhum ressentimento em relao a Kevin.
      Queria explicar  madrasta como se sentia culpada pelo tratamento que dispensara a ele naquele vero, mas foi impossvel encontrar as palavras. A raiva formava
um n em sua garganta.
      Uma hora depois, quando Kevin chegou, Lucy se deu conta de que tambm as crianas estavam includas no passeio. No desceu as escadas, incapaz de prever as
prprias reaes se porventura tivesse de encar-lo.
      No entanto, uma coisa estava bem clara. No podia permitir que Kevin acreditasse naquela histria absurda de Fanny. Quando se acalmasse, iria procur-lo e
contar a verdade. No deixaria que ele continuasse a pensar que era to estpida e infantil a ponto de guardar rancores pelo fato de ele ter herdado o solar.
      Do quarto, pde ouvir as crianas correndo, portas batendo e em seguida o ronco do motor se distanciando  medida que o carro se afastava. Parada ao lado da
janela, vendo-os desaparecer ao longe, Lucy viu-se tomada por uma profunda amargura. Seria uma reao tardia  morte do pai? Na poca estivera ocupada demais para
chorar. Sem falar no choque de ter descoberto a verdade sobre o irmo.
      Contudo, se havia algum que devia gostar da deciso de George Martin, pensou, era Oliver. Porm, nas atuais circunstncias, jamais o faria. George o tinha
deixado muito bem provido, enquanto a herana de Kevin era mais um fardo do que uma vantagem.
s quatro e meia da tarde, Lucy ouviu o carro chegando de volta. Sentiu os msculos se retesarem, tensos, mas no fez meno de se levantar. Ficou onde estava,
o sorriso de boas-vindas sumindo do rosto ao no se deparar com Fanny e as crianas, e sim com Kevin.
      Ele parou no batente por um instante, depois entrou e fechou a porta, fazendo o corao dela disparar.
      - Oi - ele disse alegre. - Fanny pediu que eu passasse aqui para avis-la de que ela e as crianas s voltaro aps o jantar. Encontraram-se com um velho amigo
de seu pai, o coronel Bishop, e ele os convidou para jantar.
      - Obrigada, eu...
      Lucy sentiu a boca seca, os lbios incapazes de formar as palavras. Kevin a perturbava de tal modo, que parte dela queria repudi-lo, enquanto outra queria
fazer parte do crculo mais ntimo de sua vida.
      Aos vinte e cinco anos considerava-se muito velha e sensata para se apaixonar... Aquilo era coisa de adolescentes. O que havia em Kevin que a abalava tanto?
Seu sentimento de culpa em relao a ele no era argumento suficiente para explicar a sensao que tinha cada vez que ele se aproximava.
      - Como voc  prendada...
      Kevin olhava as camisas brancas, em que ela passara a tarde costurando os distintivos da escola.
      - So para Oliver... Lucy explicou, mal prestando ateno ao que estava dizendo, concentrada em absorver cada detalhe dele, dividida entre o desejo de prolongar
aquele momento de intimidade e uma aflitiva necessidade de pr um fim nele. - Ele vai comear a estudar.
      - Sei... Kevin a fitou por um segundo, parecendo intrigado. - Seu pai foi bastante generoso com seu irmo - comentou - muito mais do que com voc e Carol.
      Lucy comeou a tremer, nervosa.
      - Meu pai era meio antiquado - defendeu-se ela. - Era desses que achava que os homens precisam de uma boa educao e as mulheres no. -Arriscou um sorriso,
percebendo, com alvio, que Kevin parecia ter-se convencido.
      - Acho que lhe devo minhas desculpas - ele falou de sbito, virando-se de costas, de modo que ela no pde ler nada em seus olhos: - No havia percebido at
hoje o fardo que seu pai lhe ps nas costas.
      O corao dela deu um salto. Fanny teria contado sobre Oliver? As palavras seguintes de Kevin provaram que no.
      - Philip Patterson contou-me que  a responsvel por Oliver e Carol.
      - Papai pediu que ajudasse Fanny a cri-los - concordou Lucy. - Estava preocupado que a esposa no pudesse fazer isso sozinha. Achou que ela no tivesse estrutura
emocional, quero dizer.
      - Ento deixou para voc a responsabilidade de cuidar de duas crianas e mais sua madrasta... Ser que nem ele nem Fanny pensaram que gostaria de viver sua
prpria vida? Que poderia querer se casar... ter filhos?
      - Papai fez o que achava melhor... para todos - replicou Lucy, tmida. - Fanny...
      - Fanny  uma chata - interrompeu Kevin virando-se para ela num radiante sorriso.
      Foi como se o sol a aquecesse. Lucy sentiu-se como se suspensa no ar... quase voando. Agitada, levantou-se, desviando o olhar daquele rosto moreno.
      - Fanny me contou esta manh que... que achava que eu estava com raiva pelo fato de voc ter herdado o solar. - Ela fitou as mos, apertando-as num gesto nervoso,
sem saber como continuar.
      Quando ergueu a cabea, o sorriso de Kevin havia desaparecido e no havia nada de encorajador em seus olhos. Ao ver que ele no a ajudaria a falar, Lucy suspirou,
resoluta.
      - Quero que saiba que no  nada disso, Kevin. Eu sempre soube que seria o herdeiro de meu pai e jamais me ressenti com isso. Na verdade, Fred  que... Ela
parou, interrompendo-se. No iria usar o outro primo como desculpa por seus atos passados. - Se quer saber, acho que sua herana  mais um problema para voc do
que um presente. - Ela o encarou, obrigando-se a fit-lo nos olhos.
      - Entendo... e  porque no tem raiva de mim que vem me evitando desde o dia que cheguei?
      A voz dele soou tranqila, porm to cheia de cinismo que Lucy percebeu-se tomada pelo desespero. No tinha sido assim que imaginara a reao dele diante de
sua explicao.
      - At mesmo Carol e Oliver pensavam que eu era um intruso... E no assimilaram este sentimento de Fanny.
      - No! Foi papai quem os induziu a pensarem desta forma. As palavras saram antes que ela pudesse se conter. Lucy de imediato arrependeu-se, zangada consigo
mesmo por confessar aquilo.
      - Est bem. - Ele a olhou, enigmtico. - Ento no tem raiva de mim? timo.
      Por algum motivo ele parecia contrariado, os lbios bem torneados estavam apertados numa linha dura. Quando deu as costas, Lucy viu que iria partir. Num impulso,
ela correu atrs dele e tocou-lhe o brao, retirando-o imediatamente ao sentir a pele quente sob a camisa. Kevin dirigiu-lhe o olhar e Lucy sentiu-se despida pelo
brilho daqueles olhos cinzentos.
      - Kevin, eu tambm quero me desculpar - disse, antes que perdesse a coragem, respirando fundo tentando se controlar.
      Ele no se moveu, porm ela pde perceber uma atitude de ansiedade que aumentou ainda mais a tenso que pairava no ar.
      - Pelo que lhe fiz h doze anos - continuou, tremula. - Naquele vero, quando veio at aqui, fui uma estpida. Quero que saiba que sempre lamentei isso. -
Ela arriscou um fraco sorriso. - Eu esperava poder compens-lo quando voltasse, e que tivesse esquecido o quanto fui hostil com voc. Eu... Aquele vero no foi
fcil para mim. Havia acabado de perder minha me. E, alm disso, era ingnua demais para julgar Fred acertadamente. No que esteja querendo culp-lo, mas  que,
na poca, Fred tinha grande influncia sobre mim... Ela umedeceu os lbios, nervosa. - Logo que percebi que tipo de gente ele era, me arrependi do modo como me comportei.
Principalmente depois que descobri que voc tambm estava passando por uma fase muito difcil na vida.
      - Por que no disse tudo isso quando cheguei? A voz dele saiu baixa, sem qualquer sentimento.
      - Eu queria, porm achei que talvez no fosse necessrio, que talvez quisesse esquecer o passado tanto quanto eu e comear de novo. Ento, quando percebi que
ainda guardava mgoa de mim... Bem, pensei que, se tivesse tempo de me conhecer melhor, minhas desculpas teriam mais valor para voc.
      Por um momento, pareceu a Lucy que ele daria as costas e a deixaria sem mencionar uma palavra. A dor que explodiu dentro dela era insuportvel, muito mais
intensa do que o orgulho ferido. O que no daria para saber o que se passava na cabea dele...
      De sbito, ele se voltou para ela e seus lbios abriram-se num sorriso:
      - Foi uma poca terrvel para mim. Sabia que meus pais estavam para se divorciar e, ser mandado  Inglaterra, sem saber o que seria do meu futuro, no podendo
fazer nada sobre isso, estava me deixando louco. Acho que ns dois estvamos numa pior, e ter Fred por perto no ajudou em nada, no ?
      - Sim, Fred s complicou a situao.
      Para eles era evidente que, sem a interferncia de Fred, poderiam ter sido amigos e ajudado um ao outro.
      - Quer dizer que estou perdoada? As palavras saram tremulas, com a voz suave e hesitante.
      - Como no lhe perdoar se voc olha para mim desse jeito? Lucy esforou-se para no se deixar levar pela emoo.
      - Podia recusar minhas desculpas com a maior facilidade do mundo, tendo em vista o que fiz, como o tratei naquela ocasio...
      Kevin preparou-se para falar, reprimindo um sorriso:
      - Verdade que no queria me ver nem pintado de ouro? Ele disse, os olhos envolvendo os dela, brilhantes. - Foi um golpe e tanto o meu ego ser to desprezado...
      - Como assim? Lucy o fitou, confusa.
      - Nunca lhe ocorreu que um rapaz pode ficar frustrado para o resto da vida com a rejeio de uma garota?
      - Mas eu s tinha doze anos e voc j estava quase com dezessete!
      - Idade mais do que suficiente para apreciar as formas de uma linda prima. - Ele a fitou, com os olhos semicerrados. - No percebeu mais tarde que todo aquele
antagonismo era apenas uma mscara para esconder a atrao que sentamos um pelo outro?
      Lucy o olhou, perplexa. Seria verdade? Seria esse o motivo pelo qual seu corao disparava cada vez que o via?
      Espantada, percebeu que ele havia confessado que tambm se sentia atrado por ela.
      - J que fizemos as pazes - continuou Kevin, diante do silncio dela - quero sel-la devidamente. No quero esse tratado de paz anulado...
      Antes que Lucy pudesse entender o significado daquelas palavras, ele a puxou para si e seus olhos provocantes a hipnotizaram. Segurou-a pela nuca e os lbios
desceram sobre os seus.
      No havia fora nem exigncia no contato morno das duas bocas. Nada que justificasse a exploso de desejo que a assolou. Lucy deixou-se beijar, fascinada,
certa de que vivia um sonho.
      Kevin afastou-se um pouco, e foi como se o mundo perdesse a cor. Mas a sensao de vazio no durou muito tempo. As mos dele envolveram seu rosto, o dedo perseguindo
o contorno dos lbios midos e cheios.
      Lucy fechou os olhos, o corpo aninhando-se no dele sensualmente. O rosto clido de Kevin aproximou-se de novo, porm, desta vez, ele no conteve os mpetos
no modo como a sua boca cobriu a dela.
      Um gemido escapou da garganta de Lucy, ao mesmo tempo em que ela rendia-se s exigncias daquele beijo, entregando-se com uma nsia quase assustadora. Era
como se a razo cedesse, dizendo que, com ele, estaria segura, no importando onde as emoes a levassem.
      Quando Kevin a soltou, Lucy viu que no era sem relutncia, o brilho nos olhos cinza dando-lhe a certeza de que o beijo o afetara tanto quanto a ela. Mas agora
que seu corpo j no estava sob o domnio e o calor do dele, algo lhe dizia que no devia dar muita importncia ao que acabara de acontecer.
      "Foi apenas um beijo", disse a si mesma.
      - Bem, acho que nosso tratado de paz j est mais do que selado - murmurou, tremula.
      O sorriso dos lbios de Kevin foi o suficiente para entorpecer seus sentidos mais uma vez.
      - Ainda temos muito que comemorar esse nosso reencontro - Kevin respondeu, no se dando por satisfeito.
      Uma espcie de torpor ainda a envolvia quando os outros voltaram para casa: Oliver, animado com as histrias de guerra do coronel e Carol, ansiosa para falar
dos filhotes de coelho que havia visto.
      - Tom  um homem to gentil - comentou Fanny, assim que as crianas foram para a cama. - E to sensvel! Disse-me que eu devia sair por algum tempo... tirar
umas frias. Claro que respondi que isto estava fora de cogitao. Primeiro porque no temos dinheiro suficiente, segundo porque nunca poderia deix-la sozinha com
Oliver e Carol.
      A princpio, Lucy viu-se inclinada a concordar. Porm ocorreu-lhe que sua irritao com Fanny devia ser conseqncia de todos os aborrecimentos causados pela
morte do pai, e que ambas mereciam algum tempo para si mesmas.
      - Se quiser ir, tenho certeza de que posso contornar a situao - sugeriu.
      - Acha mesmo? O rosto de Fanny se iluminou. - Tom falou que um amigo dele tem um apartamento em Marbella e que eu poderia alugar por uma ninharia.
      Lucy duvidava disso, porm no mencionou nada. No estavam to mal financeiramente, que Fanny no pudesse se dar ao luxo de um repouso.
      - Acho que ser bom para ns duas - ela falou, com um sorriso.
      - Oh, Lucy, voc  um amor! Fanny a abraou, entusiasmada. - Sinto muito se a aborreci com os comentrios a Kevin. Mas  que tenho estado to desorientada
sem seu pai... Gostaria que eu falasse com Kevin e dissesse a ele que estava errada, quero dizer, que no tem raiva dele?
      - No precisa. - Lucy balanou a cabea. - Eu j disse.
      Passados dois dias, tudo estava pronto. Fanny voaria para a Espanha no fim de semana, a fim de usufruir quinze dias de praia em Marbella.
      Nesse meio tempo, Lucy viu Kevin em diversas ocasies. Nada de mais nfimo ocorreu entre os dois, porm estava convencida da mudana radical no comportamento
dele em relao a ela. Aceitou a nova mudana de bom grado.
      Algo tambm se transformara dentro dela: desenvolvera dentro de si uma certa qumica, tipicamente feminina, que a tornara mais leve... e sedutora.
      At mesmo Carol percebeu a diferena.
      - Adorei vir morar na fazenda - a pequena irm confiou a Kevin certa manh, enquanto alimentava Harriet no novo estbulo. - Lucy tambm. Est sempre cantando
e abraando a gente. Gosto disso!
      Lucy, que se aproximava a tempo de ouvir suas ltimas palavras, sentiu-se corar.
      Kevin, percebendo-a se aproximar, olhou para Lucy e disse alegre, antes que ela desse s costas e se afastasse, entre embaraada e feliz:
      - Eu tambm...

     CAPTULO IV
      "...Felizes, ns? Ah, talvez, talvez, Naquela terra, daquela vez...".
      Desde aquele beijo era como se, tanto ela quanto Kevin, fossem dotados de um sistema de radar que os fazia gravitar para o mesmo lugar, sempre ao mesmo tempo.
      E quanto mais isto acontecia, mais Lucy se convencia de que no era to velha como havia pensado para cometer o desatino de se apaixonar. Bastava sentir o
olhar de Kevin para se derreter inteira, o corao aos saltos. E, em cada sorriso, cada pequeno gesto, ele provava que dividia com ela os mesmos sentimentos.
      Para os outros, seu comportamento podia no lembrar o de um homem apaixonado. Porm, s ela sabia interpretar o brilho nos olhos cinza, o calor de um pequeno
toque em seu brao quando ele lhe falava, ou ento o modo como Kevin afastava-lhe o cabelo da testa, vez ou outra. Seus olhos diziam que, o que estavam vivendo,
era apenas um preldio, uma promessa, uma amostra do que estava por vir.
      Agradava a Lucy o fato de Kevin no querer apressar as coisas. Seus sentimentos em relao a ele eram fortes o suficiente para no deix-la apreensiva.
      No estava acostumada a sentir um desejo to grande e, ao mesmo tempo em que seus carinhos a deliciavam, era assustador perceber o quo vulnervel se tornava
ao lado dele.
      Fanny estava nervosa no sbado de manh, dia em que partiria para a Espanha. Entretanto, quando Kevin chegou para transport-la ao aeroporto, se tornou mais
alegre e descontrada.
      Em pouco tempo, todos estavam no carro. Fanny quase tomou o assento da frente, mas, numa manobra qualquer, Kevin conseguiu faz-la sentar-se no banco de trs,
junto s crianas. Depois piscou para Lucy, que sorriu satisfeita.
      Antes de alcanarem os portes, Kevin diminuiu a marcha ao ver o carteiro acenando para eles. Sorridente, o homem entregou a Lucy duas ou trs cartas, para
depois passar um mao delas para as mos de Kevin. A maioria parecia cartas comerciais, fazendo-a lembrar-se de como sabia pouco da vida que ele levava nos Estados
Unidos.
      Como se adivinhasse seus pensamentos, Kevin disse, colocando-as dentro do porta-luvas do carro:
      - So da minha firma. Tentei adiantar o servio antes de vir para c, todavia parece que algumas coisas no podem esperar.
      Lucy pensou cabisbaixa que, sem dvida, assim que Kevin vendesse o solar, voltaria para a Amrica.
      Aps verem o avio de Fanny decolar, os quatro foram ao zoolgico de Londres, tomaram um lanche e fizeram um rpido passeio pela cidade, seguido por um ch
no Grosvenor House Hotel, e terminando  tarde com uma volta pelo parque.
      Mal entraram no carro, Oliver e Carol adormeceram, exaustos.
      - Se no tivssemos estes dois para olhar, podamos fechar o dia jantando por aqui - falou Kevin, enquanto dirigia de volta para casa.
      Lucy olhou as crianas, com um sorriso.
      - Fanny no  l muito maternal, no ? Comentou ele.
      - , sim, porm a seu modo. - Lucy sentiu-se compelida a defender a madrasta. - Fanny os ama muito.
      - E adora deixar a responsabilidade por eles em seus ombros.
      - Eu tambm os amo demais - ela respondeu, em voz baixa.
      - Eu sei. Imagino que o homem que quiser casar com voc ter que aceit-los, tambm.
      Ela fitou-o, confusa. At ento, no tinha pensado muito na possibilidade: o casamento sempre lhe parecera uma coisa to distante e pouco provvel. Mas agora...
      - No! Replicou. - Fanny  a me deles e, se eu casar,  lgico que ela os vai querer junto dela. Embora eu tambm seja legalmente responsvel pelas crianas,
e eles estejam morando na minha casa, a penso que meu pai lhes deixou  suficiente para que os trs vivam muito bem. Mesmo assim, iria querer estar sempre em contato
com Carol e Oliver.
      - Humm... Estranho isso. - Kevin franziu a testa. - Afinal de contas, Oliver tem pai, no ? Ele  quem devia sustent-lo.
      Lucy engoliu a seco.
      - Meu pai adorava Oliver - falou, hesitante, embora aquilo fosse verdade. Papai era desses homens que d preferncia aos filhos homens... Alm disso, ele e
Fanny casaram-se quando Oliver era muito pequeno.
      - Mesmo assim... Kevin no parecia convencido. - No lhe parece estranho que ele tenha se empenhado em deixar tanto para um garoto que nem mesmo era seu filho?
      -  impossvel questionar as decises de meu pai - respondeu ela, com voz sumida. - O que pretende fazer com o solar? Indagou, tentando evitar o assunto. -
Obviamente no vai querer mant-lo, vai?
      - No?
      Do jeito que Lucy havia formulado, era mais uma afirmao do que uma pergunta, e ela o fitou, surpresa com a resposta que j esperava ouvir e ponderou:
      - Gastaria uma pequena fortuna para torn-lo habitvel. E, mesmo que no quisesse reform-lo, s os impostos e taxas que teria de pagar no compensariam mant-lo.
      - Est certa, porm... Ele a olhou, intrigado. - No se sente ligada ao solar, Lucy?
      Pelo menos esta pergunta ela poderia responder com honestidade.
      - Claro que sim, mas acho que, com o tempo, tornei-me uma pessoa muito prtica. Durante os ltimos meses em que meu pai ficou doente, fui a pessoa que teve
de cuidar de tudo, pagar as contas etc. Tenho a impresso de que isso curou a doena de quer-lo para mim. Alm do mais, cresci sabendo que um dia teria de deix-lo.
      - Sim, e seu pai devia odiar ter de respeitar esta tradio de famlia, no ? Passar o solar para o prximo descendente homem em linha direta, quando tinha
voc como filha. Lembro-me o quanto lamentava o fato de eu ser o herdeiro e no voc. Ficou ainda mais desapontado quando Carol nasceu. Tio George esperava um menino.
      Lucy baixou os olhos.
      - Um pouco - respondeu, nervosa. - Deve imaginar como ele se sentia em relao ao solar e  famlia. Eu mesma acreditava que, de algum modo, os Martin eram
imortais, inviolveis, muito superiores ao destino dos outros seres humanos... Foi um choque quando mame morreu.
      - Ento no era mesmo dio naquele vero... S dor.
      - Sim - ela admitiu.
      - Bem, agora tudo passou. - Kevin cobriu-lhe a mo, num contato breve, porm quente e confortador. - No a vi usar a biblioteca desde que cheguei. Espero que
no esteja pensando que ainda no  bem-vinda?
      A princpio Lucy tinha medo de ser inconveniente, de abusar da confiana, mas agora via que estava enganada.
      -  que no tive mais tempo para trabalhar no livro - explicou. - Mas o rascunho est praticamente pronto. S preciso lev-lo para os editores na prxima semana.
      - Deve escrever muito bem para ter chegado onde est - Kevin comentou. - Sei o quanto  difcil para um escritor iniciante ter seu primeiro livro aceito. Principalmente
quando se trata de fico.
      - Bem, tive sorte por meu tio ter me recomendado - admitiu modestamente.
      -  verdade. Contudo, se o seu trabalho no fosse bom o bastante, nenhuma recomendao adiantaria.
      Lucy agradeceu, satisfeita, ao ouvir o elogio. Ainda mais por vir de Kevin! Era disso que sentia falta desde a morte da me: algum com quem pudesse partilhar
suas mnimas coisas, seu dia-a-dia, seus altos e baixos, por mais que estes parecessem sem importncia. Seu pai nunca se interessara por seu trabalho, e Fanny achava
bobagem uma mulher querer provar sua capacidade e tornar-se independente.
      Havia o tio dela, sim, mas no o via com muita freqncia, principalmente depois de ele se aposentar. Alm disso, o fato de evitar Fred tanto quanto podia,
tornara suas visitas aos parentes cada vez mais raras.
      - No vai precisar da biblioteca para escrever os prximos livros? Perguntou Kevin, arrancando-a de seus devaneios.
      - Talvez precise dar uma olhada nos documentos e dirios - concordou. - Tenho tido boas idias.
      - No seria mais fcil levar o que precisa para a casa da fazenda, junto de voc?
      - Sim, porm so documentos de famlia. Acho que pertencem ao solar, e a voc como herdeiro.
      - Ponto de vista bem diferente do de seu pai, o seu - ele comentou. - Pelo que sei, tio George se despojou de boa parte dos livros e documentos que podiam
lhe render algum dinheiro.
      Lucy no tinha como defender o pai daquela crtica. Tambm ela achara abominvel o fato de o pai querer se livrar dos bens da famlia, bens esses que faziam
parte da prpria histria da Inglaterra.
      - No sou meu pai, Kevin - foi tudo que pde dizer. Quando a mo dele pegou a sua, soube que Kevin entendia como estava se sentindo.
      Embora no houvessem chegado muito tarde, Lucy rumou para a cama logo que acomodou as crianas. Tambm estava exausta.
      Ela e Kevin tinham se despedido com um beijo no rosto. Todavia, ela no ficou triste nem desapontada. Os olhos cinza prometiam que haveria tempo de sobra para
os dois, amainando seus receios quanto  volta dele para os Estados Unidos. Uma dvida assolou-a, antes de dormir: ser que Kevin fizera todas aquelas perguntas
sobre as crianas porque tencionava lev-la com ele?
      "Um passo de cada vez, Lucy", disse a si mesma. "Um de cada vez."
      O encontro com os editores estava marcado para tera-feira, na hora do almoo. Na segunda, Lucy deixou as crianas com a Sra. Isaacs e foi ver a mulher do
reverendo, a Sra. Smallwood, a fim de saber se ela poderia ficar com Oliver e Carol. Conhecia a Sra. Smallwood h anos, e a filha dela, Vernica, havia estudado
com ela na universidade. Hoje estava casada e tinha dois filhos.
      - Pode ficar sossegada - garantiu a amiga, com um sorriso. - Vou ficar com Amanda e Daniel por uma semana para que Vernica tenha um pouco de tempo para Ryan...
Oliver e Carol tero companhia. Como vai Kevin? Indagou a mulher, sabendo o que se passava no solar. - Ele vai se estabelecer aqui?
      - Est timo - respondeu Lucy, o corao disparando  simples meno do nome dele. - Mas acredito que no vai querer ficar por muito tempo, embora seja difcil
encontrar um comprador para a casa.
      - Imagino! Em minha opinio, ele devia transform-la num hotel, numa escola ou at mesmo numa casa de repouso...
      A Sra. Smallwood estava certa. Lucy lembrou-se de que Fred falara algo sobre uma associao que estaria interessada em comprar o solar. Mas, conhecendo bem
o primo, duvidava que fazer negcios com ele fosse bom para Kevin.
      Mordeu o lbio inferior ao lembrar-se do pouco caso que Fred fizera de Kevin naquele vero. Gostaria de olhar a cara do primo, quando ele visse que Kevin no
era to caipira e estpido quanto imaginava...
      Quando Lucy voltou para casa, passou pelo solar para apanhar as crianas, porm no havia sinal de Kevin.
      - Ele saiu a negcios - explicou a Sra. Isaacs. - Recebeu um telefonema dos Estados Unidos esta manh - cochichou a mulher, em tom de fofoca, Lucy no quis
esticar a conversa, agradecendo a velha e saindo em seguida.
      Algumas dvidas sobre o livro mantiveram-na na mquina de escrever o resto da tarde. Estava distrada, relendo o original, quando Oliver surgiu sala adentro,
como um foguete.
      - Kevin chegou! Est na cozinha com Carol e disse que quer ver voc.
      Empurrando a mquina, Lucy apalpou os ombros doloridos antes de seguir o garoto.
      Kevin estava de costas, absorvido numa conversa com Carol. Vendo aquela silhueta larga, o pescoo moreno  mostra, suspirou, reprimindo o impulso de se aproximar
de mansinho, encostar os lbios na pele quente e aspirar o perfume msculo que emanava dele.
      Como se pressentisse que estava sendo observado, Kevin virou-se para ela, com a expresso se transformando ao ver o fascnio e o charme que Lucy emanara.
      Ela corou. No estava acostumada a sentir um desejo to intenso. Uma sensao de incerteza e de vulnerabilidade a invadiu.
      Kevin abriu um sorriso e com a voz baixa e profunda a convidou:
      - Sei que vai estar fora a maior parte do tempo, amanh. Mas vim ver se no gostaria de jantar comigo. Carol me contou que vai deix-los com a Sra. Smallwood.
      - Sim, eu... Bem, adoraria jantar com voc - Lucy conseguiu dizer.
      No era possvel que ele no percebesse o modo como a afetava. Porm no havia falso interesse em seus olhos. De sbito, Kevin caminhou em sua direo, deixando-a
com as pernas fracas pela expectativa...
      - A que horas vai sair amanh? Perguntou.
      - Cedo. - Lucy engoliu a seco, perturbada com aquela proximidade. - Vou deixar as crianas no caminho.
      - Imagino que esteja querendo dormir...
      Lucy sentiu-se aquecer por dentro. Se Carol e Oliver no estivessem ali, pensou, ele a teria beijado.
      Olhou o rosto amado e sorriu de volta. Kevin sabia o que estava pensando!
      - Eu gosto de Kevin. Voc no gosta? Indagou Carol mais tarde, enquanto tomava sua sopa. - Ele  legal, no ?
      - Muito - concordou Lucy, pensando que "legal" era uma gria fraca demais para descrev-lo.
      Como havia dito a Kevin, Lucy tinha tido a inteno de dormir cedo. Todavia, o sono a abandonou. Sem querer, ela viu-se pensando no jantar do dia seguinte,
e no no encontro com os editores.
      Onde Kevin a levaria? Em um lugar pequeno e aconchegante? Um refgio para namorados?
      Incrvel que ela, que sempre fora to cautelosa e distante em relao aos homens, estivesse ansiosa por um encontro.
      Uma parte de seu ser estava vagarosamente intimidada pela fora dos sentimentos que afluam, a outra vibrava por reconhecer que era mulher, que sentia prazer
e o desejava. Excitava-se s de pensar em como Kevin podia ser bom amante, despertando seu lado reprimido de mulher, que no tinha coragem de entregar-se aos prprios
prazeres.
      Se fechasse os olhos, podia sentir a presso da boca dele contra a sua. Suas mos tocando o corpo. O desejo a estava fazendo delirar, e o corao disparava
loucamente.
      Nesse momento correu a lngua pelos lbios secos, sentindo os mamilos se enrijecerem, uma gota brotava contra o tecido fino da camisola.
      De repente,  noite lhe pareceu quente demais, seu corpo muito desperto para o sono.
      Gostaria que Kevin estivesse ali, com ela...

     CAPTULO V
      "...Mas j sonhada se desvirtua. S de pens-la cansou pensar..."
      Calor de Londres atingiu-a como um golpe no momento em que desceu do txi.
      O escritrio da editora ficava num lugar retirado e pacato, porm at mesmo as flores nos canteiros pareciam cansadas da poeira da cidade.
      Chegando ao destino, Lucy deu o nome  recepcionista, uma bonita morena, e sentou-se para esperar. Dentro de si guardava a expectativa. Em outras circunstncias
teria se sentido diminuda diante da beleza e sofisticao da moa, mas naquele momento tudo o que pensava era que a pobre continuaria trancada naquele escritrio
com um dia to lindo l fora. E mais: no iria para casa jantar com um homem como Kevin...
      - A Sra. Francis vai receb-la agora - anunciou a recepcionista, dez minutos depois.
      Levantando-se, Lucy seguiu a secretria at uma pequena sala.
      - Lucy! Como est, querida?
      Beverly Francis era muito pequena. Com cerca de um metro e meio de altura, os cabelos escuros comeando a ficar grisalhos. Ela e o tio de Lucy haviam freqentados
a universidade de Oxford juntos, e agora Francis tinha o jeito caloroso e seguro de uma mulher bem-posicionada na vida.
      Olhos castanhos e perspicazes observaram Lucy enquanto ela se sentava.
      - Parece cansada e no estou surpresa que esteja. Seu tio me contou outro dia que sua vida no tem sido fcil desde a morte de George.
      - Tivemos que enfrentar alguns problemas, mas creio que esteja tudo resolvido.
      - Humm... Est morando com sua madrasta e as crianas, imagino?                            Lucy captou a leve insinuao de crtica nas palavras da amiga.
      - No momento, Fanny no est em condies de cuidar das crianas sozinha - explicou, um pouco constrangida.
      Olhando as feies jovens e delicadas de Lucy, sentada do outro lado da mesa, Beverly Francis perguntou-se como um pai poderia deixar para uma filha daquela
idade o fardo de uma famlia inteira.
      Tinha duas filhas, da mesma idade de Lucy, mas que no conseguia supor desempenhando o papel que aquela menina fora obrigada a aceitar.
      - Olhe, reservei nossa mesa para uma hora - disse, com um sorriso. - Por que no conversamos durante o almoo?
      Seguiu para um restaurante prximo com Francis, que falava entusiasmada sobre os dias gostosos que havia passado na companhia do tio de Lucy, em Oxford.
      - Estamos encantadas com seu trabalho - a editora falou, sem prembulos, uma vez sentadas e esperando pela comida.
      - Obrigada, Francis.
      A tenso abandonou o rosto de Lucy no mesmo instante.
      - Tem um talento especial para escrever, querida - continuou ela, sincera. -  claro que ainda precisa se aperfeioar em um ponto ou outro, mas pode ir em
frente. Seu novo livro j est pronto?
      - Fiz muitas pesquisas, porm no o escrevi ainda. J tenho a coluna vertebral da histria, mas ainda estou pensando nas tramas paralelas e como vou utilizar
as informaes obtidas nos documentos da famlia.
      Beverly ouviu atentamente os planos de Lucy, interrompendo vez ou outra para dar algumas sugestes.
      Quando terminaram o almoo, Lucy estava animada para voltar ao trabalho. Desde a morte do pai, sentia-se sem alento, e andava ocupada demais com os afazeres
domsticos para dar ao livro a concentrao que este merecia. Agora, contudo, seu nimo se renovara.
      Quando disse isso a Beverly, ela sorriu.
      - Para isso  que servem os editores: para inspirar seus autores, no deprimi-los!
      Conversaram mais um pouco, acertando os ltimos detalhes para a publicao do primeiro exemplar. Depois Lucy se despediu da amiga, sentindo-se leve.
      Era tarde quando resolveu tomar o trem de volta para casa. Assim que o fez, sentou-se no banco, mordendo os lbios ao olhar a sacola que carregava nos braos.
No conseguira resistir ao vestido de jrsei preto que vira numa vitrina da Bond Street. O tecido colara-se a seu corpo como uma segunda pele, despertando nela todas
as sensaes da noite passada. Usaria-o  noite... para Kevin.
      Ela estava bastante emocionada e apressou o passo  medida que o trem se aproximava da estao. Depois da rpida viagem desceu na estao e em seguida dirigiu-se
para o carro.
      - Lucy!
      Uma onda de prazer invadiu-a quando ouviu a voz de Kevin. Parou, vendo-o correr em sua direo, o sorriso largo e radiante dele que a deixava paralisada.
      - Achei melhor vir busc-la - ele falou, ofegante. - Fiquei com medo de que se esquecesse do nosso encontro.
      Ela o fitou por um instante, hipnotizada, depois seus lbios se abriram num sorriso ao pensar o quo absurdas soaram as palavras dele.
      - Como sabia em que trem eu estava? Indagou, confusa. Kevin disse com os olhos cinza brilhando:
      - Eu no sabia. Verifiquei cada um que chegava.
      O sorriso dele convidava-a a sorrir tambm, mas Lucy no podia. Estava aturdida. Lgrimas vieram-lhe aos olhos, um misto de prazer e angstia dando-lhe um
n na garganta. H anos algum no se importava com ela a ponto de fazer tal coisa.
      - Hei...
      Os braos de Kevin desviaram-na do caminho dos transeuntes, virando-a para ele. Seus olhos a fitaram, preocupados.
      - Desculpe... Lucy conseguiu dizer, tendo a voz embargada. - Deve estar me achando uma boba, mas  que... faz tanto tempo que ningum se importa comigo desse
jeito...
      Kevin praguejou baixinho e envolveu-a num abrao. O corpo forte dele sustentava a cabea de Lucy, que se deliciava ao sentir os lbios de Kevin roando sua
testa.
      De sbito, ele a soltou, olhando-a com paixo.
      - No est fcil manter minha deciso de que levaria as coisas devagar... disse, atordoado.
      Lucy, com os olhos ainda midos, murmurou muito meiga:
      -  melhor eu ir para casa sozinha. No posso deixar meu carro aqui.
      Afastar-se dele era uma tortura, principalmente diante do modo como ele a fitava.
      - Uma hora  suficiente para ficar pronta?
      Uma hora? Ficar longe dele por mais de cinco minutos era um sofrimento. Mesmo assim, ela concordou com a cabea e, tomando coragem, deu as costas, dirigindo-se
para o carro.
      Mais tarde, pensou que fora um milagre ter chegado em casa s e salva. Tinha-o visto mais uma vez pelo retrovisor, segui-la com o BMW. Depois, no conseguia
lembrar-se de nada do caminho, apenas como se sentira quando Kevin a abraara, quando a olhara com tanto desejo.
      Quando parou na casa da fazenda, ele passou por ela buzinando, dando-lhe um breve aceno. Lucy desceu do carro apressada, voando para dentro. Uma hora era pouco
tempo para se arrumar como queria.
      Antes disso, no entanto, precisava telefonar para a Sra. Smallwood. Se ela no pudesse continuar com as crianas, seu encontro com Kevin seria cancelado.
      - Claro que fico, querida! A mulher concordou, solcita. - Na verdade, estava pensando em pedir que os deixasse dormir aqui tambm amanh. Esto se dando to
bem com Amanda e Daniel!
      Quando colocou o fone no gancho, Lucy vibrava. Teria outra noite livre para... "Para o qu?" pensou, com um sorriso malicioso, lembrando-se do calor do corpo
de Kevin contra o seu.
      O vestido negro caa-lhe como uma luva, contornando as curvas suaves de seu corpo perfeito. O vero lhe proporcionara um lindo bronzeado, que contrastava com
os cabelos loiros. Quando terminou de se vestir, olhou-se no espelho e achou o resultado surpreendente.
      Agitada, calou as sandlias de salto alto, as pernas esguias ganhando um ar gracioso. Viu-se no espelho de novo, procurando algum defeito. Perdera um pouco
de peso desde a morte do pai, porm suas formas continuavam bastante femininas e atraentes.
      Maquilou-se levemente, limitando-se a passar um p translcido, um blush rosado, sombra e batom da mesma cor. Quase nunca usava perfume, j que a vida no solar
estava longe de ser sofisticada, mas desta vez se daria ao luxo de experimentar o Lutece, que ganhara de Fanny. Um conjunto de brincos e gargantilha de ouro, herana
de sua me, completaram o quadro.
      Perfeito. Tudo o que restava agora era saber se Kevin aprovaria...
      Ele chegou cinco minutos mais cedo, desculpando-se, embaraado, quando ela veio abrir a porta. Lucy sorriu, feliz. No estava acostumada a ter algum to ansioso
por sua companhia. Tentou controlar a prpria agitao, dizendo a si mesma que a emoo e o desejo que via nos olhos dele poderiam ser to efmeros quanto um sonho.
      Todavia, no havia nada de efmero no modo como Kevin sorria para ela, os olhos famintos percorrendo as curvas de seu corpo, nada de efmero no toque de seus
dedos em suas costas, enquanto a guiava para o carro...
      O contato causou uma verdadeira erupo nos sentidos de Lucy, fazendo-a estremecer, arrepiar-se dos ps  cabea.
      Kevin percebeu a reao de Lucy. Viu os lbios dela se apertando numa tentativa de conter o desejo que havia brotado em seu corpo, como resposta quela carcia
despretensiosa.
      Lucy sentou-se no banco, fechando os olhos. Sentia-se embriagada, meio fora do ar. Era isso que fazia o amor?
      Kevin tinha reservado uma mesa num restaurante afastado,  margem de um rio.
      Quando foram direto para l, em vez de pararem no bar para um drinque, Lucy pensou que ele devia estar com fome. Porm mudou de opinio quando o garom aproximou-se
com um champanhe francs num balde de gelo.
      - Ainda no sei se podemos comemorar algo em relao a seu livro - comeou Kevin, observando o lquido borbulhante na taa de cristal. - Mas preciso festejar
minha sorte por estar com voc esta noite.
      Lucy devolveu o olhar intenso que ele lhe lanava, erguendo a taa para um brinde. A bebida gelada desceu leve por sua garganta, aumentando, aos poucos, a
sensao de languidez.
      Pediu melo como entrada, seguido por salmo, como prato principal. Ficou encantada, quando Kevin pediu o mesmo. Pareceu-lhe um bom pressgio o fato de seus
gostos estarem em sintonia.
      Conhecendo a reputao do restaurante, Lucy tinha certeza de que o jantar seria um manjar dos deuses. Porm mal percebeu o gosto da comida. Estava por demais
absorvida por Kevin, em ouvi-lo e em decorar cada gesto seu.
      Ele percebeu, e seus olhos se encontraram, presos de um modo que ela pensara existir apenas nos filmes antigos. Quando Kevin segurou sua mo, foi como se seu
corao estancasse, para depois disparar descompassadamente.
      - No posso acreditar que isto esteja acontecendo.
      As palavras dele ecoaram em seus pensamentos e Lucy sorriu, fascinada.
      - Eu sei... murmurou. - No  ridculo?
      - Ridculo? Kevin devolveu o sorriso, balanando a cabea. - No. Milagroso, talvez... Mas ridculo? Nunca. Esperei muito tempo para me sentir assim em relao
a algum, Lucy, e agora quero saborear cada momento... No vamos apressar as coisas. Tenho vinte e nove anos e quero mais desse relacionamento do que apenas sexo...
      - Mais? A voz dela saiu incrdula. - Como assim?
      - Compromisso... Permanncia... Essas coisas, disse, em tom de brincadeira, porm seus olhos estavam srios.
      O corao dela deu um salto.
      - Estou indo depressa demais, no ? Kevin continuou. - No quero assust-la, Lucy. Vamos conversar sobre seu livro. "Quero conversar sobre voc", ela respondeu
em pensamento, mas sentiu-se insegura para argumentar. Limitou-se a concordar com um movimento de cabea. Seria amor, aquele sentimento forte, delirante, que a possua,
aquela felicidade absurda por estar ao lado dele?
      J era tarde quando deixaram o restaurante. Kevin insistiu para que ela tomasse todo o champanhe, alegando que ele  quem iria dirigir... Lucy obedeceu e,
aps tomar o vinho durante o jantar e ainda o brandy depois da sobremesa, sentia-se deliciosamente tonta e alegre.
      Kevin abraou-a, guiando-a at o carro, divertido. Roou os lbios nos dela com sensualidade, provocando-a.
      Lucy lutou contra a vontade de abra-lo, lembrando que ainda estavam no estacionamento. Deu um passo para trs, relutante.
      - Ainda bem que fez isso... Kevin disse, malicioso. - Caso contrrio eu teria me esquecido de todas as minhas boas intenes.
      - Talvez seja isso o que eu queira...
      Ela mal acreditava que aquelas palavras, provocantes, tivessem sado de sua boca. Mas tinham, e, julgando pela expresso e o brilho nos olhos de Kevin, ele
no parecia nem um pouco chocado, pelo contrrio...
      - Um dia, no muito longe, eu a farei lembrar do que disse - prometeu com um sorriso, abrindo a porta do carro. Durante o caminho de volta, Lucy percebeu que
sua excitao no a abandonara. Queria-o desesperadamente, e se Kevin pedisse que ficasse com ele, no pensaria duas vezes.
      Chegaram  casa da fazenda rpido demais. Nenhum dos dois dissera uma palavra no caminho, porm, no havia sido necessria. Quando Kevin estacionou, ela sentiu
o corao disparar.
      - Ser que a ouvi convidar-me para um drinque?
      Os olhos dela pousaram nos dele. Kevin teria adivinhado seus pensamentos? Por detrs daquele convite, havia algo muito mais forte e excitante: uma promessa
de fogo, de prazer.
      A casa estava na penumbra e Lucy buscou o interruptor, com os dedos trmulos. Podia sentir na pele o calor que emanava do corpo de Kevin atrs de si. Tateou
a parede, sem conseguir encontrar o boto.
      - Problemas? Ele acendeu a luz, e a calma com que o fez deixou-a ainda mais perturbada.
      A viso do rosto moreno, sentiu as pernas fracas. Jamais homem algum a olhara daquele modo.
      - Lucy...
      O nome saiu abafado de encontro aos lbios dela e a boca de Kevin impediu Lucy de qualquer resposta. Tremiam envolvidos pelo frmito da paixo. A urgncia
do beijo assolava-os por completo.
      Estava cada vez mais difcil respirar, mas Lucy no ousou afastar-se. Encostou o corpo no dele, frustrada pela barreira que as roupas representavam.
      - Entrar aqui com voc foi uma idia estpida... murmurou Kevin, enquanto umedecia os lbios dela com a lngua. - Eu devia ter imaginado o que iria acontecer...
      - Foi voc quem...
      - Eu sei, eu sei... ele a interrompeu com um beijo. - Eu a desejo demais, Lucy. E sei que quando sair daqui vou passar o resto da noite acordado, querendo
que estivesse comigo. - Kevin suspirou. - Mas temos que ir com calma. Quero conhec-la como pessoa tanto quanto como mulher. Faz sentido para voc?
      - Claro que sim, Kevin.
      Lucy o olhou, desconcertada. Jamais estivera to vulnervel.
      - Quero muito mais de voc do que sexo - repetiu ele, num sussurro. - Muito, muito mais... disse, os lbios tocando-lhe os olhos, o rosto, a boca.
      Quando se afastou, Lucy o fitou, atordoada:
      - Que tal um drinque, agora?
      - Excelente idia, Lucy - Kevin respondeu, com um sorriso. - Podemos beber em memria aos velhos tempos, e depois... bem, depois vou para casa, dormir sozinho
na minha cama.
      E foi assim que aconteceu.
      Mais tarde, perturbada emocional e fisicamente para dormir, Lucy viu-se dividida entre a felicidade de saber que Kevin a levava a srio e a decepo pelo autocontrole
dele ser to intenso. Na verdade, muito mais do que o dela.
      Suspirou, lembrando-se da nsia com que haviam se beijado antes de ele partir. Houve um momento em que soube que seria fcil faz-lo esquecer de sua deciso.
A mo dele tocara seu seio, encontrando o mamilo enrijecido, e ela gemera, puxando-o para si, num convite. Viu o quanto fora difcil para ele se afastar...
      Se o houvesse provocado um pouco mais, provavelmente ele estaria ali com ela agora.
      Mas Kevin estava certo. As emoes, os sentimentos que dividiam, ainda eram frgeis demais para que se deixassem carregar pela fora da paixo. Tudo seria
a seu tempo.
      Fechou os olhos e tentou dormir.
      Na manh seguinte, Lucy resolveu aproveitar seu inesperado dia de folga para trabalhar no livro. Depois de um rpido caf da manh, apanhou o material e a
mquina de escrever, e rumou para o solar.
      A Sra. Isaacs recebeu-a com um sorriso.
      - O Sr. Kevin disse para esper-la - anunciou. - Contou-me que vai trabalhar na biblioteca, e me fez prometer que a tiraria de l para o almoo. Ele teve que
sair, mas estar de volta ao meio-dia.
      Kevin parecia estar saindo muito nos ltimos dias. Estaria tratando da venda do solar? Provavelmente. E no devia estar sendo fcil encontrar um comprador.
      Era incrvel, mas ela nem mesmo sabia com o que ele trabalhava. Contudo isto no tinha importncia, refletiu Lucy, contanto que ele se sentisse realizado.
      Tudo o que Kevin havia dito sugeria que, se tivesse de voltar para a Amrica, gostaria que ela o acompanhasse. E, se assim fosse, Lucy teria um problema pela
frente. No podia abdicar de sua responsabilidade por Oliver e Carol, porm no era nenhuma mrtir sofredora para sacrificar a felicidade a fim de assumir os deveres
que, na verdade, eram de Fanny.
      No. Encontraria uma soluo. Tinha que encontrar, decidiu, ao imaginar as cenas que provavelmente a madrasta faria. Mas no importava. Seu amor por Kevin
vinha primeiro.
      Amor! O gosto da palavra deixou-a meio tonta de prazer. Seus sentimentos por Kevin haviam na transformado numa verdadeira adolescente apaixonada. S agora,
pensou, sabia o que era felicidade. Era como descobrir que a imagem bruxuleante de um sonho tornara-se real, e podia ser alcanada, tocada...
      Relutante, resolveu parar de pensar e concentrar-se no trabalho. Contudo,  medida que escrevia, reparou que seu personagem principal ia ficando cada vez mais
parecido com Kevin. O retrato verbal que fizera dele era to realista, que ningum acreditaria que aquele era um simples trabalho de fico.
      Como havia dito, Kevin chegou ao meio-dia. Sem dizer nada, envolveu-a nos braos e beijou-a com ardor.
      A campainha estridente do telefone, no entanto, quebrou o momento de magia. Kevin afastou-se com relutncia, mantendo-a nos braos, enquanto apanhava o fone.
      Ao ver os lbios bem-feitos se comprimirem, Lucy percebeu que havia algo errado.
      - Est bem, me, entendi - ele falou, por fim. - Mas no posso voltar imediatamente... No, no sei quanto tempo vou demorar.
      Ele ouviu mais um pouco, depois desligou.
      - Problemas? Indagou ela, preocupada. Kevin suspirou, contrariado.
      - Mais ou menos.  na firma de meu padrasto. Minha me quer que eu volte para ajudar a resolv-los. Trabalho para ele - explicou Kevin ao ver a expresso confusa
de Lucy.
      Ento era isso. O telefonema explicava por que Kevin passava tanto tempo fora.
      - Cuidando da contabilidade - acrescentou ele, apenas. Era bvio que no queria esticar o assunto.
      - Vai ter que voltar...?
      - No imediatamente.
      Lucy pde sentir os msculos dele se retesarem, sob a camisa leve. Kevin no queria aborrec-la, dizendo que seria obrigado a deix-la, mas ela estava certa
de que ele iria partir, e em breve.
      Ainda era cedo demais para ele querer lev-la com ele e, aflita, rezou para que o tal problema fosse resolvido sem que Kevin tivesse de voltar aos Estados
Unidos.
      - Conseguiu algum comprador para o solar? Lucy indagou, tentando mudar de assunto.
      - Mais ou menos. H uma ou duas pessoas interessadas - comentou, com cautela. - Mas preciso estar atento. H muita gente querendo levar vantagem, ainda mais
que sou estrangeiro... Ele a fitou, por um instante. - Tem certeza de que no est aborrecida por perder este lugar? Deve ser apegada a ele, de algum modo.
      - Sim, mas no tanto que no possa viver sem ele. - Ela deu de ombros. -Afinal,  como se ele no pertencesse mesmo a vo... Lucy interrompeu-se, embaraada
e assustada com as palavras que estava proferindo. Estivera muito perto de revelar o segredo do nascimento de Oliver.
      Arriscou um olhar para o rosto de Kevin, antecipando sua curiosidade, porm no foi isso o que encontrou nele. Sua expresso era dura, os olhos cinza encarando-a,
gelados.
      De repente Kevin a soltou, dando-lhe as costas.
      - Pelo que vejo, tambm me considera um intruso.
      Ela o olhou, horrorizada com o modo com que ele interpretara suas palavras.
      - No... No; Kevin - gaguejou, nervosa. - Est enganado! Jamais o vi como um intruso!
      - Mas tambm no me v como o verdadeiro dono do solar, no ?
      O que Lucy poderia fazer? S ela e Fanny sabiam a verdade. Como podia quebrar a promessa que fizera ao pai e contar tudo a Kevin? De qualquer modo, que benefcio
isso traria? Ele poderia pensar que estava tentando manipul-lo, obrigando-o a fazer algo por Oliver.
      Diante do silncio de Lucy, Kevin suspirou, enraivecido.
      - Que pena no ter correspondido s expectativas de seu pai, no , Lucy?
      - Por que diz isto? Ela o fitou, sem entender. Ele devolveu o olhar, cheio de cinismo:
      - Ora, no vai querer se fazer de desentendida agora. At minha me sabia das intenes de seu pai, j que chegou ao cmulo de ir procur-la, pedindo que mame
apresentasse voc a alguns americanos ricos. S que h muito tempo eles deixaram de dar seu dinheiro em troca de uma esposa aristocrtica. E pobre. - Kevin riu,
amargo. - Sem dvida, seu pai tinha esperanas de que seu marido rico pudesse comprar o solar de mim antes da transferncia, assegurando-o para seus netos.
      - No, no  verdade! No posso acreditar!
      Lucy o fitou perplexa. Kevin devia estar brincando. No era possvel! Seu pai jamais lhe falara tal coisa.
      - Pensa que estou mentindo, no ? Indagou, spero. - Pois no estou. Pode perguntar  minha me, se quiser. Devia estar com uns dezessete anos na poca.
      Dezessete anos! Fanny ainda estava casada com o primeiro marido dela. No era difcil George ter armado um plano daquela espcie!
      - No acho que esteja mentindo, Kevin - disse, com dificuldade. - Seria bem tpico de meu pai. Se pareci chocada, foi porque jamais fiquei sabendo disso. Sei
que ele esperava que Fanny lhe desse um filho e, como voc mesmo disse, papai tinha uma certa obsesso pela idia de manter o solar nas mos da famlia.
      - Uma "certa" obsesso?
      Uma sombra passou pelos olhos de Lucy. Havia sofrido muito com o comportamento do pai. Sensvel, no levara muito tempo para perceber que seu nascimento fora
motivo de profundo desgosto para ele.
      Ao ver a mgoa estampada em seu rosto, Kevin arrependeu-se e puxou-a para si.
      - Desculpe, no tinha o direito de dizer essas coisas. A verdade  que estou com cime. Cime da sua lealdade para com seu pai... E apavorado com a idia de
ter de voltar para casa antes de persuadi-la a vir comigo.
      As palavras dele foram como um blsamo.
      Lucy ergueu o rosto, entreabrindo os lbios. Kevin aceitou o convite, beijando-a com paixo.
      - Oh, Kevin, eu o amo tanto.
      - Por acaso isto significa que iria comigo? Perguntou incisivo.
      - Para qualquer lugar - ela murmurou contra o pescoo moreno, deliciando-se com seu perfume.
      Era verdade. No podia fingir. Estava profunda, loucamente apaixonada por ele. Se Kevin partisse, no conseguiria suportar o vazio. Era uma sensao nova e
assustadora, porm sabia que ele partilhava os mesmos sentimentos.
      Durante o almoo, Kevin lhe contou sobre o padrasto, explicando que este j contava setenta anos e tinha a sade abalada.
      - Minha me o adora. Papai tem duas filhas do primeiro casamento e cinco netos. Vive dizendo que preciso arrumar mulher e filhos.
      - E seu legtimo pai? Costuma v-lo? Pressionou Lucy.
      - Um pouco. Ele constituiu uma segunda famlia e mora em Boston. Somos amigos, porm me sinto muito mais chegado a Harry, meu padrasto. Afinal, cresci com
ele ao meu lado. Foi Harry quem me pagou os estudos, me incentivou a trabalhar... Na verdade, foi muito mais pai para mim do que o meu prprio. Meu pai  manaco
por dinheiro. Sempre foi e sempre ser. Acredito que essa tenha sido uma das causas de minha me ter pedido o divrcio.
      Lucy escutou com ateno. Aps o almoo, Kevin foi dar alguns telefonemas, a fim de tentar acalmar a me em relao ao problema nos negcios, e Lucy rumou
para a biblioteca, sentindo-se mais confiante e satisfeita. Pelo menos agora sabia um pouco mais sobre o homem que amava.
      As duas, Kevin veio ao seu encontro, anunciando que teria de ir a Winchester para despachar alguns documentos.
      - Ainda estar aqui quando voltar, no? Perguntou, ansioso. - Vamos jantar juntos?
      - Sim - Lucy aceitou feliz ao ver o quanto Kevin parecia apaixonado e encostou-se nele, sensualmente, beijando-o com ardor. - Sabe de uma coisa? Murmurou Kevin
contra seu pescoo. - Diante das circunstncias, estou comeando a duvidar se foi uma boa idia querer ir devagar com voc... Principalmente quando no tenho neste
mundo desejo maior do que lev-la para a cama...
      - Kevin... Lucy estremeceu.
      - Gosto disso... sussurrou, ao ouvido dela. Estou tentado a esquecer aqueles documentos.
      - A Sra. Isaacs ainda est aqui... ela disse, perplexa, os olhos castanhos brilhando, o corpo lnguido de encontro ao dele.
      - Mais tarde - sussurrou Kevin, em tom malicioso, soltando-a com relutncia. - Mais tarde vou faz-la se arrepender de ter me provocado... quando a Sra. Isaacs
no estiver aqui para proteg-la.
      Beijaram-se mais uma vez, depois Kevin se foi, deixando-a num estado de torpor que a impedia de concentrar-se no trabalho.
      s trs horas, Lucy ouviu um carro.
      Franzindo a testa, caminhou at a janela, apertando os lbios ao ver Fred saltando de um conversvel vermelho.
      Aos trinta e um anos, seu rosto revelava bem o homem que havia se tornado: ganancioso, cnico e egosta, como s ele sabia ser.
      Lucy tinha conhecimento do quanto o tio estava desapontado com o filho. No pelo modo como ele dirigia os negcios: Fred era astuto, embora no seguisse os
mtodos do pai. Era seu carter ou,a falta dele, o que mais feria o tio dela. O primo parecia viver para humilhar os outros.
      Fred sorriu ao v-la e, pelo sorriso, Lucy teve a certeza de que queria alguma coisa. Agora, no entanto, estava imune a seu charme, tolerando-o apenas em respeito
ao tio.
      Ele entrou na sala como se fosse o dono da casa, deixando a porta aberta. E a teria abraado se, num movimento gil, Lucy no o tivesse evitado.
      - Parece que seu priminho americano entrou em cena novamente, hein?
      O sarcasmo do comentrio a enfureceu, porm ela apertou os lbios, tentando se controlar.
      - Veio v-lo? Indagou, mantendo a voz impassvel.
      - Mais ou menos. Queria bater um papo com voc antes. Mais uma vez o mesmo sorriso. Como podia ter-se juntado quele crpula para humilhar Kevin? Lucy respirou
fundo, tomando o cuidado de no demonstrar seu desprezo.
      - Fico lisonjeada... falou, to cnica quanto ele.
      - Oh no. No fique... Fred ficou srio por um segundo. - No vai com a minha cara. - Ele sorriu, irnico, ao ver a surpresa dela. -  pssima atriz, prima...
De qualquer modo, me deve um favor, e vim aqui cobr-la.
      - Favor? Lucy empalideceu.
      - Sim. Ou no se lembra de que fui eu quem a recomendei para a Editora Bennet?
      - Foi seu pai quem fez isso - retrucou ela.
      - D quase no mesmo.
      - Que tipo de favor, Fred? Ela quis saber.
      - Nada muito doloroso. Tenho alguns amigos querendo comprar este lugar... ao preo certo, evidente.
      - No me diga que... Lucy encarou o primo, mal conseguindo conter sua irritao.
      - Ora, o que  isso, priminha? No me olhe desse jeito. Tudo o que tem a fazer  deixar escapar para o velho Patterson que existe gente interessada. O velho
gosta muito de voc e, pelo que sei, no h ningum querendo comprar o solar.
      - Ento por que est tentando agir por trs dos panos? Ela indagou, sarcstica. - Por que no fala com Kevin de uma vez?
      Fred soltou uma gargalhada.
      - Ora, vamos. Sabe muito bem a resposta. Ele jamais venderia o solar se soubesse que estou envolvido.
      Era verdade.
      - O que quer que eu faa? Perguntou, desconfiada.
      - S quero que tenha uma conversinha com Patterson e descubra se h mais algum interessado. Se houver...
      - Disse que no havia - lembrou ela, rspida, observando-o desviar o olhar, agitado.
      No confiava em Fred apesar de seu pedido ser razovel. Porm, por detrs, devia haver um outro propsito escondido. Contudo, se no se mostrasse disposta
a ajud-lo, jamais descobriria.
      E precisava descobrir. Algo lhe dizia que os planos do primo ameaavam Kevin.
      - Vamos, Lucy! Afinal, me deve um favor!
      Ela ficou em silncio, fingindo considerar a proposta.
      - Vou ver o que posso fazer - falou, com um meio sorriso. - Mas antes quero saber o que est pretendendo.
      Fred pareceu to satisfeito e aliviado, que Lucy certificou-se de que tinha razo em suspeitar dele. Observou o primo, desconfiada. Ele devia estar tramando
alguma coisa.
      - Bem... por que no? Concordou ele, sorrindo. - Afinal, tem tanta estima por seu priminho usurpador quanto eu, no ?
      Ela tentou sorrir para disfarar, mas no conseguiu.
      - Bem,  o seguinte, Lucy: h rumores na cidade de que o governo pretende construir um local de treinamento para as foras armadas por aqui. Soube por intermdio
de um amigo meu que ainda no decidiram o local exato, mas parece que esto pensando nesta regio. H muito dinheiro na jogada... muito dinheiro mesmo. - Fred continuou.
- Acontece que toda essa gente que vier para c vai querer um lugar para descansar e se divertir. E  a que o solar entra. Se o comprarmos por um bom preo, podemos
transform-lo num hotel ou clube to bom que iria desbancar qualquer outro da regio. Podemos fazer um negcio excelente, principalmente se conseguirmos dobrar Kevin.
      Lucy olhou o primo, sem entender.
      - Mas o que tenho a ver com isso?
      - Voc entra na histria, meu anjo, dando uma palavrinha com Patterson e o negcio j estar fechado.
      Ele, sorriu ao ver a expresso dela.
      - Tudo o que tem a fazer, querida,  dizer a Patterson que entrar como scia.
      Lucy respirou fundo, tentando se controlar. O Dr. Patterson realmente tinha um carinho muito especial por ela e, sem dvida, acharia que a negociao iria
benefici-la. Contudo, Fred o julgara mal ao achar que ele colocaria os interesses dela na frente dos de Kevin. Era honesto demais para isso. Mas no iria revelar
isso ao primo mau carter.
      O que mais a assustava era que, se no houvesse outros compradores, Kevin poderia ser obrigado a vender o solar ao preo que os amigos de Fred ofereciam...
      - E ento, Lucy, o que me diz? Ele indagou com voz suave, aproximando-se para tom-la nos braos.
      Lucy engoliu em seco, rezando para que Fred no percebesse a averso que sentia por ele. Iria toler-lo, at que tivesse chance de contar a Kevin o que planejava.
Quem sabe o prprio Kevin pudesse levantar uma boa quantia de dinheiro com a ajuda do padrasto e aproveitar a idia?
      - Pelos velhos tempos? Fred perguntou, sedutor. - Lembra como nos divertimos  custa dele naquele vero? Que tal fazermos tudo de novo?
      Lucy prendeu a respirao, enojada.
      - Talvez.
      - Claro que vai topar. O solar devia ser seu, no dele. Vai usar seu charme para dobrar Patterson? No deve ser muito difcil.
      - Vou fazer o que posso - ela respondeu, com tanta naturalidade quanto conseguiu reunir. -  melhor ir embora. Kevin esta para chegar.
      - Tudo bem... Em quanto tempo acha que pode fazer isso? Dois dias?
      - No sei. Telefono avisando.
      Fred sorriu, beijando-a nos lbios.
      -  assim que se fala, garota!
      Minutos depois, havia partido. O carro sumiu na estrada, ao longe, levantando uma onda de poeira.
      Lucy desejava que Kevin voltasse logo. Tinha tanto para lhe contar!
      Agitada, foi direto para a casa da fazenda. Precisava tomar um banho e se arrumar para o jantar.

     CAPTULO VI
      "...Sob os palmares,  luz da lua, Sente-se o frio de haver luar..."
      Enquanto se maquilava, Lucy ouviu um carro que sups ser de Kevin e correu para a janela. Desapontou-se ao ver que ele desaparecia em direo ao solar. Tambm,
pensou, como adivinharia que ela estava ali?
      Olhou o relgio: seis e meia. Talvez j pudesse ir ao encontro dele.
      Decidiu caminhar os poucos metros que levavam at a casa principal e, no caminho, encontrou a Sra. Isaacs. Ao v-la, a mulher diminuiu a marcha do pequeno
carro, parando a seu lado. - O Sr. Kevin parece aborrecido com alguma coisa - falou, sria. - Est com um humor pssimo e, mal chegou, foi para a biblioteca beber
usque...
      Lucy ficou preocupada.
      Despedindo-se da governanta, rumou para o solar, apressada. Kevin teria recebido outro telefonema dos Estados Unidos? Ser que a sade do padrasto dele havia
piorado?
      Chamou por ele ao entrar no hall e, no obtendo resposta, correu para a biblioteca.
      No momento em que o viu, esqueceu-se de Fred e de seus planos. O seu rosto estava abatido, os lbios contrados numa atitude austera.
      - Kevin? Indagou, com voz sumida. - O que foi?  seu padrasto? Alguma coisa errada em casa?
      Ao caminhar na direo dele, Kevin se retesou e, por um segundo, Lucy pensou que ele fosse se afastar. De repente, no entanto, ele a segurou pelo brao com
fora, machucando-a, tal era a preocupao de Lucy, que ela nem se deu conta disso. Apenas o modo como ele a olhou, a fez sentir um arrepio de apreenso.
      - Kevin, o que foi? Repetiu, nervosa. - Aconteceu alguma coisa?
      Os lbios dele curvaram-se num sorriso destitudo de humor. O rosto dele estava to duro e frio que Lucy sentiu o estmago apertar.
      - Digamos que sim - admitiu, seco. - Mas agora no  hora para falarmos nisso.
      - Prefere que eu v embora?
      - No, fique. Kevin deu as costas, servindo-se de mais uma dose de usque. - Trabalhou muito hoje? Indagou, sem encar-la.
      Era a chance para Lucy contar sobre a visita de Fred, mas como poderia fazer a revelao com ele to frio e distante?
      - Mais ou menos - respondeu, hesitante.
      - Fui ver Patterson hoje  tarde - Kevin falou, de sbito - Ele me aconselhou a vender o solar... O que acha?
      A pergunta a pegou de surpresa.
      - Acho que no tem muita alternativa - respondeu com os olhos fixos nos dele, intrigada. - Gastaria uma fortuna para mant-lo.
      - Seu pai no encontrou muita dificuldade em fazer isso, no ? Ele perguntou, as palavras carregadas de sarcasmo.
      Lucy engoliu em seco, baixando a cabea. Tinha conscincia de que o pai vendera tudo o que poderia render-lhe um bom dinheiro, e que ela no poderia ajudar
Kevin a reformar o solar.
      - No foi assim to fcil - respondeu, em voz baixa.
      - Ento acha que eu deveria vend-lo? Insistiu Kevin. Olhava-a quase com desprezo. Estava corado, como se estivesse com febre.
      - Kevin... O que voc tem? Lucy tentou se aproximar, recuando, chocada, quando ele ergueu o brao para det-la.
      - Ainda no respondeu  minha pergunta - disse, spero. - Acha que eu devo vender o solar antes que se torne um fardo pesado demais para mim?
      Ela o fitou, confusa demais para mencionar alguma coisa.
      - No precisa dizer uma palavra. Seu silncio a condena! Explodiu ele, assustando-a. - Quando penso em como me deixei enganar! Como fui acreditar em voc?
Ele jogou o copo contra a lareira, estilhaando-o.
      - Kevin! Por favor, eu... Lucy o olhou assustada. - O que foi? O que aconteceu?
      - "Kevin, por favor!"... ele a imitou, cheio de desprezo.
      - Por favor o qu? Quer que eu d o solar de presente para seu querido priminho?
      Ela prendeu a respirao, fitando-o, horrorizada. Kevin soltou uma risada amarga, quebrando o silncio.
      - Pois ... Sei de tudo. Ouvi vocs dois conversando, ou melhor, conspirando. - Ele a olhou, transtornado. - Em nenhum momento foi sincera comigo, no , Lucy?
Foi tudo um jogo, um plano para mais uma vez me fazer de idiota. E pensar que eu... Kevin parou de falar, correndo as mos pelo cabelo.
      Lucy o observou, chocada para dizer algo em sua defesa. Era como se estivesse tomando parte numa cena de teatro, algo to irreal e absurdo que mal podia crer.
      - Vi o carro chegando e desci para ver quem era. Quando ouvi a voz de Fred e percebi voc conversando com ele, no pude acreditar. Voc nem mesmo hesitou quando
ele lhe fez a proposta? Indagou, olhando-a com um misto de mgoa e desprezo.
      Lucy sentiu-se repentinamente fraca, segurando-se no espaldar de uma cadeira.
      - Kevin... No entende? Eu tinha que fingir estar do lado dele para descobrir o que estava tramando! Como pode acreditar que o ajudaria a prejudic-lo?
      - Se fez aquilo por minha causa, por que no disse antes? Indagou, frio.
      Lucy apertou as mos, nervosa.
      - Porque pensei que estivesse preocupado com outra coisa... No sei... Algum problema em casa. No queria aborrec-lo mais. Ia lhe contar tudo, Kevin. Tem
que acreditar em mim! Implorou, em pnico. - Ia at lhe perguntar se havia um modo de conseguir fundos para fazer com o solar o que Fred pretendia... Kevin, por
favor, acredite!
      Ele a fitou por um instante, o rosto plido como cera.
      - Por que acreditaria?
      - Porque eu te amo!
      O silncio os envolveu, como uma bruma. Lucy o olhou, ansiosa. Precisara de toda a coragem para dizer aquilo, porm viu que suas palavras tinham surtido efeito.
      Kevin fitou-a por vrios minutos, como se duvidasse do que acabara de ouvir.
      Lucy podia imaginar o que ele estava pensando, se ouvira apenas parte de sua conversa com Fred. Kevin devia estar se sentindo trado, relembrando tudo o que
acontecera naquele vero. Magoava-a o fato de t-la achado capaz de prejudic-lo, embora fosse obrigada a reconhecer que sua reao era natural, j que se conheciam
to pouco.
      - Diga-me exatamente o que Fred falou - exigiu ele, por fim.
      Devagar, quase hesitante, ela o fez, a voz tremula, traindo a mgoa pela acusao de que fora vtima.
      Kevin a observava com ateno e os olhos semi cerrados.
      Queria chorar, implorar para que ele acreditasse, porm ainda possua orgulho. Algo muito precioso e frgil se quebrara dentro dela diante da agressividade
dele.
      Como se percebesse isso, a expresso de Kevin mudou.
      - Lucy... Ele suspirou, exasperado, puxando-a para si. - Por favor, no me olhe desse jeito. Desculpe-me pelo que disse. Tente entender. Ver vocs dois juntos,
ouvi-lo falar daquela maneira. Foi como se houvesse voltado no tempo. Fiquei morto de cime... pronunciou palavras abafadas de encontro aos cabelos dela, com tanto
cime que no parei para pensar no que tinha ouvido. S tive cabea para sair dali, ir para um bar at achar que Fred pudesse ter ido embora. Voc me perdoa? Ele
a abraou com fora, traando um crculo de fogo com beijos em volta do rosto, dos olhos e do pescoo de Lucy.
      Ela o empurrou, relutante.
      - No tenho de que perdo-lo - disse, com um sorriso tmido. - Vim aqui para jantar, no para ouvi-lo se lamentar.
      - Eu no quero comer...
      O homem controlado da noite anterior se fora, ela percebeu, com ondas de alegria e medo cortando-lhe o corpo.
      - Quero voc, Lucy - disse, murmurando as palavras contra sua boca. - Agora...
      O desejo misturava-se  prudncia.
      Lucy olhou o copo estilhaado na lareira... Quantos ele havia jogado ali? Ou era o primeiro? Aquele pedido... Era por amor ou por algum outro sentimento desconhecido
e sombrio?
      E o mais importante de tudo: Kevin teria mesmo acreditado no que ela havia dito? Aceitara suas desculpas rpido demais. Muito mais rpido dada a fria com
que h tratara poucos minutos antes.
      - No me quer? A voz dele era suave em seu ouvido, fazendo-a estremecer.
      Claro que o queria. Mais do que tudo nesse mundo. Sentiu as mos dele segurarem seu rosto, obrigando-a a encar-lo.
      - E ento, Lucy?
      - Sabe que sim - respondeu com a voz tremula, denotando insegurana.
      - Ento venha comigo.
      Tomando-lhe a mo, Kevin guiou-a para fora da biblioteca, em direo s escadas. Subiram em silncio, Lucy sentindo o corao bater descompassado dentro do
peito. Na noite anterior, mal dormira imaginando como seria aquele momento.... Porm jamais lhe passara pela cabea que, quando chegasse, pudesse ficar mais temerosa
do que excitada.
      No topo, ele parou para fit-la, os olhos escuros semicerrados. O que estaria pensando? Como a estaria vendo realmente? O que havia por trs daqueles olhos
cinza, to distantes?
      Ela estendeu a mo, hesitante, tocando-lhe o brao. A sombra nos olhos dele se desfez, dando lugar a um brilho intenso, cheio de calor e desejo.
      Suspirando, ele a abraou, enterrando o rosto em seu pescoo:
      - Esquea esta tarde - sussurrou, erguendo-a nos braos. - Esquea tudo. Pense apenas em como nos sentimos agora...
      Levou-a no colo para o quarto, colocando-a na cama com cuidado e comeou a remover-lhe as roupas uma a uma, lentamente, adorando cada parte do corpo que se
revelava. Depois, sem tirar os olhos dela, despiu-se tambm.
      O movimento das mos de Kevin na pele de Lucy era como uma msica traduzindo sentimentos. Os lbios dela se abriram dceis diante da presso insistente dos
dele. Ento, os braos dela envolveram-no com nsia e a emoo cedeu ao prazer.
      A mo dele segurou seu seio, a boca traou um caminho de pequenos beijos at a ponta rosada. Lucy arqueou o corpo, exigindo mais, muito mais do que aquela
carcia.
      Como se soubesse o quanto a suavidade dos lbios a atormentava, Kevin abriu a boca, envolvendo o mamilo saliente, a lngua foi acariciando-o com firmeza. Os
gemidos que escapavam dela pareceram inflamar mais sua paixo.
      Kevin envolveu o outro seio, umedecendo o vale entre eles, descendo mais, at tocar a curva suave de sua feminilidade. Parou, ento, vendo-a estremecer com
os olhos cheios de desejo enquanto a tocava com cuidado.
      Lucy queria gritar que ele estava indo depressa demais, mas no conseguiu emitir nenhum som. Respirava com dificuldade, dividida entre a timidez e a quase
loucura.
      Kevin moveu-se de repente, cobrindo-lhe a boca com violncia.
      - Faa amor comigo, Lucy... Mostre-me que me quer tanto quanto eu a quero...
      No pedido lancinante, quase incoerente, ela reconheceu o garoto inseguro de doze anos atrs, temendo a rejeio. Seus braos o envolveram convulsivamente,
todo o amor que sentia incitava-o a cobrir-lhe o corpo de beijos e carcias.
      Kevin tinha uma sensualidade que jamais julgara existir. Maravilhava-se a cada pequeno toque seu, surpresa ao ter prazer com os carinhos que ela mesma fazia
nele.
      - Est me provocando, no ?... Ele falou baixinho, com um sorriso, antes de segur-la, de modo a pux-la de encontro a si.
      Sentir aquele corpo quente roando o seu, era um delrio que Lucy jamais sonhara. Ofegante, ela enterrou as unhas na carne macia das costas dele, querendo
mais, precisando de algo que nem mesmo sabia o que era. A boca de Kevin envolveu seu seio mais uma vez e ela gemeu, jogando a cabea para trs e arqueando o corpo,
movendo-o junto ao dele.
      De sbito, a mo de Kevin tocou-lhe a carne quente e mida e um espasmo de prazer a sacudiu. Gritou o nome dele, agarrando-o com desespero. Os olhos fechados
com fora, o corpo rgido pelo desejo que tentava controlar, sentiu-o afastar-se um pouco, estremecendo de alvio ao antecipar o encontro definitivo de seus corpos.
      Mas no foi o peso do corpo de Kevin que sentiu contra o dela, e sim a carcia ntima e alucinante de sua lngua. Chocada, tentou protestar contra o que jamais
sups existir, porm seu corpo exultava de prazer. Tentou empurr-lo, todavia seus dedos no obedeceram e mergulharam nos cabelos densos de Kevin como se tiyessem
vida prpria, puxando-o para ela.
      Era tarde demais para evit-lo, tarde demais para qualquer protesto ou recusa, que no entregar-se ao prazer que ele estava lhe proporcionando.
      Quando pensou que no fosse agentar mais, Kevin a tomou nos braos, obrigando-a a encostar a cabea em seu peito, enquanto acariciava-lhe o corpo ainda tremulo.
      - Eu queria te sentir dentro de mim... protestou Lucy com voz embargada, embevecida de prazer.
      Kevin riu baixinho, a respirao quente acariciando-lhe o ouvido.
      - Vai sentir... depois, amada e querida Lucy. - Ele a fitou, os olhos semicerrados. - Adoro a mulher de vinte e cinco anos, adoravelmente inexperiente, que
voc ...
      Ela ficou tensa e, como se percebesse, Kevin a abraou, carinhoso.
      - No estou querendo saber nada... O que passou, passou. Mas no imagina o quanto faz bem ao ego de um homem saber que proporcionou um prazer a uma mulher,
prazer que ela jamais sentiu.
      Lucy mordeu os lbios, imaginando o que ele diria se soubesse que... No, no ia pensar naquilo agora. Afinal, como ele mesmo dissera, no era importante.
      Se estivera inclinada a acreditar que no chegariam a fazer amor, estava enganada. A exausto que a invadira aps as carcias de Kevin cedeu ao langor de seus
beijos. E o langor  urgncia desenfreada quando as mos dele voltaram a correr por seu corpo, mais sbias e exigentes.
      Acariciou-o tambm, emocionada e um pouco assustada diante do desejo que se manifestava em seu corpo.
      Desta vez no precisou dizer o quanto o queria. Ele pareceu saber o momento exato, movendo-se sobre ela como se brincasse, a princpio, para depois penetr-la
lentamente, arrancando dela um pequeno grito de surpresa e choque.
      O mesmo choque refletiu-se nos olhos cinza: Kevin estancou por um instante, atordoado, mas Lucy o puxou para si, a dor dando lugar  urgncia e ao clamor dos
sentidos. Instintivamente, comeou a se mover devagar, vendo-o fechar os olhos, sentindo o desejo crescer entre os dois com fria, at explodir como um copo de cristal
ao som de uma nota aguda.
      Kevin no a abraou como antes. Rolou para o lado, os olhos fixos no teto.
      - Por que no me contou? Perguntou, tenso.
      Depois das juras de amor, no era aquela a reao que Lucy esperava... Evitando o olhar dele, ela deu de ombros:
      - Achei que no fosse importante.
      - Claro que era importante! Retrucou, frio. - No existem muitas virgens de vinte e cinco anos por a, hoje em dia...
      As palavras a feriram e, para esconder a dor, ela o encarou, altiva:
      - Agora h menos uma.
      - Por que deixou que eu fizesse amor com voc? Achou que isto me convenceria de que no estava mentindo em relao a Fred? Vai contar a ele o que aconteceu
aqui?
      Lucy sentiu os msculos se retesarem, to chocada com o que estava ouvindo quanto com o tom frio da voz dele.
      Parecia-lhe impossvel que estivessem tendo aquela conversa. H menos de uma hora, Kevin dissera que a amava, e agora estava agindo quase como se a odiasse.
      Era, com certeza, por causa de sua virgindade, refletiu, amarga. Porque ele no a amava coisa nenhuma e apenas a desejara, ficando zangado ao perceber que
era seu primeiro amante. Sem dvida estava assustado, achando que ela iria exigir algum compromisso.
      - Por que iria querer contar a Fred o que aconteceu conosco? Perguntou, gelada. - Ele  apenas meu scio... nada mais. No momento em que seus lbios deixaram
escapar a mentira,
      Lucy quis retrat-la. Porm o olhar de Kevin a emudeceu. Ele sentou-se na cama, plido.
      - Ento estava mentindo... Estava aliada a ele o tempo todo - exclamou, transtornado. - Tudo o que aconteceu aqui foi s uma maneira de me iludir, no foi,
Lucy? No foi?! Ele a sacudiu, os dedos enterrando-se na pele macia de seus braos.
      - Sempre se deixou enganar muito fcil, Kevin - ela respondeu num impulso, movida pela profunda mgoa que a dilacerava. - Eu vinha lhe contar os planos de
Fred quando disse que havia nos ouvido. Nunca tive a inteno de tomar partido de Fred. Como poderia conseguir dinheiro para financiar um projeto daqueles? Ela mal
podia acreditar que tinha encontrado foras para falar.
      - Dinheiro  tudo para voc, no ? Kevin a fitou com desprezo. - Eu devia saber, desde o princpio. Toda aquela encenao de arrependimento pelo que seu pai
havia feito! Sem dvida esteve sempre com ele, ajudando-o a planejar cada passo... Muito bem, tenho boas notcias para voc, minha querida prima. Eu poderia comprar
e vender esta droga de solar um milho de vezes! Ele disse, amargo, ao ver a expresso dela. - Est surpresa, no ? No quer acreditar, mas  verdade. Meu padrasto
 multimilionrio, e o que no lhe contei antes  que, quando ele e mame se casaram, meu pai legtimo concordou com que ele me adotasse como seu filho. Agora que
Harry est aposentado, eu  quem estou  frente dos negcios e, como pode imaginar, possuo bastante dinheiro sobrando... Como v, Lucy, teria se dado melhor lanando
sua sorte em mim. Que pena ter sido to gananciosa!
      - Mas sabia como eu era desde o princpio, no ? Rebateu Lucy, tentando dar alguma ironia s palavras. - Desde o comeo voc...
      - Perguntei a mim mesmo que tipo de pessoa era - concordou Kevin. - Todavia parece que sou muito mais ingnuo do que eu pensava. Por um momento, conseguiu
me convencer. Cheguei muito perto de me apaixonar por voc. Pena que ouvi aquela conversa hoje  tarde, seno voc poderia ter os meus milhes para brincar em vez
dos milhares de Fred... ele disse por entre dentes, num tom ameaador. - Vou tomar um banho e ver se consigo arrancar esse seu perfume, antes que ele me envenene.
Quando voltar, no quero v-la mais aqui. Pode dizer a Fred que ele no tem nenhuma chance de comprar este lugar... nenhuma chance mesmo. - E sorriu, sarcstico.
- No gostaria de estar na sua pele quando falar com ele, priminha. Fred parece ter um lado bastante cruel.
      Ele deu as costas e caminhou para o banheiro, parando na porta para encar-la.
      - Que diabos voc viu naquele calhorda que no consegue resistir a ele? Perguntou, irnico. - Qualquer idiota percebe que  insignificante para ele. Fred nem
mesmo a quis como mulher, no ? Kevin riu. - Pelo menos para mim valeu a pena, tanto fsica quanto psicologicamente: foi bom saber que a estava iludindo tanto quanto
estava me enganando.
      Ele bateu a porta atrs dele, num estrondo.
      Lucy continuou sentada na cama, tremendo violentamente. Era um pesadelo, pensou, enquanto tentava controlar os membros entorpecidos para vestir as roupas.
      Kevin no poderia ter dito aquelas coisas...
      Mas, dissera, esmagando seus sonhos e sua vida, e agora era tarde demais para dizer que havia mentido, que jamais quisera trai-lo. Kevin nunca acreditaria.
      Alm disso, ele tambm havia mentido. Desde o princpio no confiara nela. Havia esperado apenas que cometesse um deslize para confirmar suas suspeitas. E
permitira que ela pensasse que estava apaixonado, enquanto todo o tempo tinha lhe preparado uma armadilha.
      Uma vez na casa da fazenda, Lucy sentou-se numa cadeira, encolhendo-se inteira. Estava ferida demais para pensar em dormir.
      Na pele, o cheiro torturante de Kevin e a certeza de que jamais o veria de novo.
      Estava determinada a fazer isso. Ainda tinha orgulho, reconheceu, com as lgrimas jorrando copiosamente.
      Se ficasse ali, como poderia evitar de implorar que ele acreditasse nela? Amava-o, mas Kevin jamais sentira o mesmo. Ele apenas havia fingido. Talvez at tivesse
feito tudo aquilo com a inteno de se vingar por toda a humilhao que passara.
      Lucy ficou na sala vazia por mais algum tempo. Por fim, exausta e confusa por pensamentos cada vez mais dolorosos, adormeceu.

     CAPTULO VII
      "... Ah, nessa terra tambm, tambm o mal no cessa, no dura o bem..."
      - Como assim? Voc vai embora? Indagou Fanny, olhando a enteada sem entender.
      Fanny retornara naquela manh, parecendo saudvel e feliz. Ao contrrio dela que estava plida, como se estivesse doente, refletiu Lucy. Mas, no importava.
O principal era que tinha de sair dali... daquela casa... fugir da proximidade de Kevin, a quem, felizmente, no via desde a desastrosa noite, h dez dias.
      - Resolvi levar a srio meu trabalho, Fanny - explicou, calma. - Preciso de paz e sossego para escrever e no posso ter isso aqui, morando com voc e as crianas.
      Como havia imaginado, Fanny a olhou, entre ofendida e magoada. Contudo, no se deixaria dissuadir. Sabia exatamente o que ia fazer.
      No passara aqueles ltimos dias em vo. Telefonara para Beverly explicando que gostaria de passar uns tempos em Londres, a fim de tirar idias e poder escrever
seu segundo livro, onde parte da histria passava-se na cidade.
      A amiga imediatamente lembrara-se de uma editora, conhecida sua, que viajaria a trabalho para Nova York por dois meses e precisava urgentemente de uma pessoa
que ficasse em seu apartamento durante esse perodo, cuidando dele e de sua gata siamesa...
      Um rpido encontro e um agradvel almoo com a mulher convenceram a ambas que Lucy era a pessoa certa para isso. Tinha dinheiro suficiente para passar dois
meses fora e, caso surgisse alguma dificuldade, poderia aceitar servios de datilografia para equilibrar o oramento.
      Havia at mesmo falado com o Dr. Patterson, explicando suas intenes e deixando claro que no pretendia passar o resto da vida cuidando de duas crianas que
ainda tinham me.
      Caso Kevin pretendesse manter o solar, o que no era nada difcil dada as revelaes que lhe havia feito, ela venderia a casa da fazenda. Porm, guardaria
esta deciso para si, at chegar o momento.
      A nica coisa que lhe trouxera verdadeira satisfao, no entanto, foi o telefonema que deu a Fred, contando-lhe concisa e friamente que seus planos haviam
fracassado. Ele no ficou nem um pouco contente, porm suas imprecaes no a perturbaram.
      No se abalava com mais nada. Exceto com a dor pela rejeio de Kevin...
      - Mas, Lucy! Precisamos de voc - choramingou Fanny.
      - No, no precisam - respondeu, decidida. - Pode arranjar uma moa para ajudar no servio. Oliver comea a estudar logo e Carol no  problema.
      - Mas este lugar  to isolado. Vou ficar muito s.
      - Ento compre ou alugue uma casa perto da cidade. Tenho certeza de que se for falar com o Dr. Patterson, ele vai liberar parte suficiente do dinheiro de Oliver
para fazer isso.
      - Mas, Lucy, voc no entende! Seu pai queria que Oliver ficasse aqui... no lugar que lhe  de direito.
      - Meu pai devia ter arrumado um lugar mais apropriado, ento - ela rebateu, cansada das exigncias que sempre lhe eram feitas em nome do dever.
      O pai dela jamais a tinha amado, no como amara Oliver. Por que teria de se sacrificar para criar o irmo? Ficaria louca se continuasse ali, atormentada dia
e noite pelas lembranas do que acontecera entre ela e Kevin...
      Estremeceu, tentando afastar as dolorosas imagens.
      - J est tudo decidido, Fanny - continuou, com firmeza. - Vou embora no fim de semana.
      Como se percebesse que no havia nada a fazer, a madrasta ficou em silncio.
      Iria sentir falta das crianas, refletiu Lucy alguns dias depois, olhando as malas e caixas empilhadas na sala. Mas no podia ficar.
      Por sorte no vira mais Kevin, embora, s vezes, pensasse ouvir sua voz, escutar seus passos... Imaginava-o voltando para ela, dizendo que tudo no passara
de um lamentvel engano.
      Entretanto, era tudo um sonho. Kevin mantinha-se afastado deliberadamente, e seu orgulho no permitia que permanecesse num lugar onde no a queriam... e onde
ficava to vulnervel.
      Teve que fazer vrias viagens a Londres, pois seu carro era pequeno demais para transportar tudo de uma s vez. Caso vendesse a casa, teria de encontrar um
lugar para guardar a moblia, ou livrar-se dela.
      Talvez os tios pudessem guardar parte dos mveis, deviam ter espao de sobra na ampla casa em estilo vitoriano que possuam  margem do Tamisa.
      Pensar no tio, a fez lembrar-se de que j no o via h algum tempo. Assim que estivesse estabelecida em Londres, iria visit-lo.
      E assim o fez.
      Como sempre, a tia, Margareth Summers, recebeu-a com lgrimas nos olhos, enchendo-a de beijos e abraos enquanto a conduzia para dentro da casa.
      - Olhe quem est aqui, Leo! Exclamou, abrindo a porta que dava para o jardim interno, onde o marido trabalhava.
      - Lucy, querida! Leo Summers abraou a sobrinha calorosamente, segurando-a diante de si ao perceber o quanto ela parecia magra e abatida  luz do sol. A mulher
pareceu notar o mesmo, olhando-a, preocupada.
      Leo estava preocupado. Nunca estimara o homem que a irm escolhera para marido, achando que, como pai, ele sempre deixara muito a desejar.
      Contudo, amor e dedicao nem sempre resultavam num bom fruto:.. Seu prprio filho, Fred, era uma decepo. Talvez se houvessem tido mais alguns...
      - Entre e conte-nos o que vem fazendo da vida, meu anjo - Margareth quebrou o silncio, lanando um olhar significativo para o marido.
      - Bem, eu... deixei a casa da fazenda e estou trabalhando aqui em Londres.
      Como Lucy havia suspeitado, sua revelao causou uma verdadeira avalanche de perguntas.
      - Nunca concordei com a responsabilidade que seu pai lhe deixou, filha - comentou o tio dela. - Fez muito bem em sair de l. Fanny tem que assumir os prprios
filhos. Mas por que no veio ficar conosco em vez de alugar um apartamento? Sabe o quanto seria bem-vinda.
      - Tenho vinte e cinco anos, tio. J  hora de me virar sozinha.
      - Humm... - Ele sorriu, complacente. - Espero que agora possamos v-la com freqncia, pelo menos. Como vai o livro?
      Conversaram por mais meia hora, at que Margareth ofereceu-se para fazer um caf. Quando voltou, trouxe uma bandeja com quatro xcaras em vez de trs, parecendo
um pouco apreensiva.
      - Hoje  dia de recebermos visitas... disse ao marido. - Fred acabou de chegar.
      Lucy viu a surpresa nos olhos do tio, porm, antes que pudesse dizer algo, Fred surgiu no jardim.
      - Ora, ora... Quem est aqui... ele falou, cnico. - Que bons ventos a trazem, Lucy?
      - Seus pais - ela respondeu, calma, recusando-se a ficar intimidada. O primo ainda devia estar zangado por seus planos terem fracassados.
      - Lucy resolveu mudar-se para Londres - informou o pai dele.
      - Verdade? Ele a olhou, visivelmente curioso. - Decidiu assim, de repente?
      - No. Vinha pensando nisso h algum tempo.
      - E o que vai fazer com a casa da fazenda quando Kevin vender o solar?
      - Kevin ainda no decidiu se vai vend-lo.
      - No? Pois eu acho que vai. Ele voltou para a Amrica de acordo com aquela velha chata que cuida do solar, parece que no vai voltar. E Fanny tambm no teve
mais notcias dele. Kevin no abandonaria sua herana assim, sem mais nem menos - Fred falou, irnico. -  bvio que vai vender o casaro.
      Kevin havia ido embora.
      A xcara de caf pareceu  Lucy um peso em suas mos. No podia acreditar no que estava ouvindo. Queria gritar, dizer que ele no a abandonaria daquela forma,
mas tudo parecia sair de foco ao seu redor.
      Quis pedir ajuda, mas suas cordas vocais estavam paralisadas. Um forte zumbido ecoou em sua cabea at que uma imensa escurido a envolveu.
      Quando voltou a si, estava deitada num chaise longue. No havia sinal de Fred, porm os tios a observavam, ansiosos.
      - Lucy, querida, graas a Deus - exclamou Margareth. - J amos ligar para o mdico. Como est se sentindo?
      - Bem... Estou bem. No precisam chamar nenhum mdico. - Tentou se sentar, mas ainda estava tonta. - Foi s um desmaio.
      - Pode ser... o dia est quente - comentou o tio. - Mas no me parece muito boa, meu anjo. Est abatida. Notei isso assim que chegou.
      Lucy tentou acalm-los, assegurando-lhes que no havia nada de errado.
      Margareth a fitou, pouco convencida.
      - Est bem. Mas insisto que passe esta noite aqui.
      - No posso, tia, sinto muito - recusou falando sobre sua responsabilidade por Pasha, a gatinha siamesa.
      - Uma siamesa?! Os olhos de Margareth brilharam. - Adoro aquele bichinho! Pode traz-la para c.
      Lucy suspirou, resignada. Precisava reconhecer que no vinha se sentindo muito bem nos ltimos dias. No tinha apetite nem nimo para fazer nada. Chorava por
qualquer bobagem, sentindo-se frgil e infeliz. Devia estar com estafa, pensou, o que no seria absurdo depois de tudo que passara nos ltimos meses.
      Talvez fosse bom ficar uns tempos com os tios, entregando-se a seus carinhos e mimos.
      A atmosfera calma da casa  beira do rio e a companhia agradvel daquele casal de que tanto gostava foi um verdadeiro blsamo para seus nervos.
      Quando ficou claro que sua estadia ali seria mais longa do que apenas uma noite, o tio dela resolveu ir ao apartamento e apanhar tudo de que ela iria precisar,
inclusive Pasha e o material para o livro.
      Porm, por alguma razo, Lucy no conseguia concentrar-se no trabalho.
      Era a segunda manh consecutiva que despertava com uma forte nusea... A menos que estivesse muito enganada, aquele sintoma era a confirmao de suas suspeitas.
      Entrou no jardim onde sua tia Margareth cuidava das rosas.
      - Ol, titia.
      - Bom dia, querida! Exclamou Margareth, com o bom humor de sempre. - Quer seu caf agora?
      - Daqui a pouco. Antes preciso lhe dizer uma coisa. - Ela engoliu a seco. - Acho que estou grvida.
      Margareth a olhou por um instante, sem, no entanto, parecer chocada.
      - Eu j suspeitava - confessou, por fim.
      A tranqilidade da tia pareceu arranc-la da apatia em que se encontrava desde o momento da confirmao da gravidez.
      - Voc sabia? Lucy perguntou, confusa.
      - Reconheci os sintomas - concordou Margareth, com um fraco sorriso. - Sentia o mesmo quando engravidei de Fred.
      Lucy desviou o olhar, repentinamente embaraada.
      - Deve estar se perguntando por que no disse nada antes, mas...
      Margareth sentou-se numa cadeira, e a fez fazer o mesmo.
      - Lucy... disse, segurando-lhe a mo. -  uma mulher adulta. No uma garota, que traria um filho ao mundo por pura irresponsabilidade.
      - Eu sei - concordou ela. - Mas, embora odeie ter que admitir, procedi como uma adolescente, sem sequer pensar nas conseqncias. Pior do que uma colegial...
corrigiu, nervosa. - Hoje em dia creio que elas so muito mais sensatas do que fui.
      - Imagino que no h nenhuma chance de voc e o pai... comeou Margareth, delicada, parando ao ver os olhos castanhos de Lucy encherem-se de lgrimas.
      - Ele no sabe de nada, tia, e nem ia querer saber. Pensei que me amasse, mas estava enganada. Estou s.
      - No, no est - discordou Margareth, com deciso. - Tem seu tio e a mim.
      Lucy sorriu. Seus lbios estavam trmulos.
      - No imagina o quanto fico agradecida mas... no posso, tia. No vou obrig-la a passar por uma situao to desagradvel.
      Margareth ergueu as sobrancelhas, em sinal de reprovao.
      - Lucy! Podemos ser velhos, mas no paramos no tempo! Uma gravidez indesejada hoje em dia no  nada! J no provoca tantas fofocas como antigamente, se 
com isto que est preocupada. Acha mesmo que eu e seu tio ligamos para essas coisas? No. Vai ficar conosco
      Era to raro ouvir a tia falar com tanta firmeza, que Lucy ficou em silncio.
      - Imagino que queira ficar com o beb? Indagou Margareth, apreensiva, ao ver a expresso da sobrinha.
      - Claro que sim! Eu jamais teria coragem de fazer um aborto! Segurou o ventre, tomada por profunda aflio.
      Desde o primeiro minuto em que tomara conscincia de sua condio, sabia que teria aquele filho... o filho de Kevin. E, apesar do choque, a descoberta pareceu,
de algum modo, aliviar a dor em seu corao. Aquilo no estava em seus planos. Todavia, no se sentia to infeliz.
      - Deve procurar o Dr. Crter - instruiu Margareth. - Ou melhor, vou telefonar para que ele venha examin-la aqui.
      - Tia... Lucy a segurou pelo brao. - Antes que faa alguma coisa, quero contar ao tio Leo. Ele pode no aceitar to bem quanto voc.
      - No se preocupe... Ele j sabe - revelou a mulher, para o espanto dela. - Como disse, estvamos desconfiados. E seu tio a quer aqui com o beb, tanto quanto
eu.
      Quando os olhos de Lucy encheram-se de lgrimas mais uma vez, Margareth a abraou com fora, sabendo que o melhor era que a deixasse chorar.
      - Prometo que no vamos lhe fazer nenhuma pergunta - Margareth falou, mais tarde, enquanto tomavam caf juntas.
      - No. - Lucy balanou a cabea, resoluta. - Se vou ficar aqui com vocs, devem saber a verdade.
      Alm disso, pensou, se os tios no soubessem quem era o pai da criana, poderiam comentar o fato com Fanny que, por sua vez, fatalmente contaria a Kevin...
Isso se ele voltasse, refletiu Lucy, amarga.
      Mesmo assim, essa era a ltima coisa que queria no mundo. Se Kevin ficasse sabendo, provavelmente sentiria-se obrigado a fazer algo por ela. E no queria isso.
Se no podia ter seu amor, ento no queria mais nada dele.
      Margareth ouviu em silncio Lucy contar tudo, omitindo, no entanto, o verdadeiro papel de Fred na histria.
      - Ele ficou to chocado quando percebeu que era a minha primeira vez, que, s ento, percebi que no me amava.
      - Lucy, tem certeza? Pode estar enganada. Parece-me que o encorajou a pensar o pior de voc.
      - Mas, se me amasse, no teria acreditado, no ? A tia dela soltou um longo suspiro.
      - Talvez no. Mas os seres humanos so complicados, querida. E, pelo que me disse, Kevin devia estar morto de cime de Fred. As pessoas, quando esto apaixonadas,
no costumam agir com sensatez. A prova est em tudo o que disse a ele.
      Margareth estaria certa? Lucy tentou se agarrar quele fio de esperana.
      Mas Kevin no a havia procurado desde aquela noite... No. A tia estava enganada. Ele no se importava com ela.
      Naquela noite, durante o jantar, Leo sugeriu que no revelasse nada sobre sua gravidez.
      - No porque estejamos envergonhados, Lucy - explicou, srio. - Mas porque queremos poup-la de perguntas embaraosas.
      Mais tarde, quando ela j estava na cama, Margareth fitou o marido, ansiosa.
      - O que vamos fazer, Leo? Ela o ama desesperadamente, mas  orgulhosa demais para tomar alguma atitude.
      - Eu sei. E no vai gostar se interferirmos... Mesmo assim, imagino que devemos. O velho Patterson pode nos fornecer o endereo de Kevin nos Estados Unidos.
Telefonarei para ele amanh.
      - E se Lucy estiver certa quanto a Kevin no querer o beb?
      - Se ele for tolo o bastante para isso... azar o dele. E sorte nossa, no ? Indagou, com um sorriso, abraando a mulher.
      - Lucy, telefone para voc:  Fanny - anunciou Margareth, dois dias depois. - Ela parece muito excitada!
      Lucy levantou-se da mesa onde trabalhava. Embora continuasse a ter nuseas, sentia-se bastante melhor depois das recomendaes do Dr. Crter. Apanhou o fone,
curiosa.
      - Al?
      - Lucy? No imagina o que aconteceu? Exclamou Fanny, agitada. - Vou me casar de novo!
      Lucy ficou em silncio por um segundo, tentando absorver a notcia.
      - ...Com o coronel, Tom Bishop - completou Fanny, parecendo constrangida, como se s ento se lembrasse que havia sido casada com o pai de Lucy. - Oliver e
Carol esto encantados... Vamos dar uma pequena festa na casa de Tom neste fim de semana, e fazemos questo da presena de vocs. As crianas esto sentindo muito
a sua falta, querida.
      Claro que ela no podia recusar o convite. No havia mais o que a impedisse de ir. Kevin no estaria l.


     CAPTULO VIII
      "...No  com ilhas do fim do mundo, Nem com palmares de sonho ou no..."
      - Que bom que deu tudo certo - comentou Lucy, assim que chegou com os tios  casa da fazenda, retornando da casa de Tom Bishop, onde Fanny e as crianas passariam
o fim de semana.
      Havia ficado satisfeita ao perceber como Carol e Oliver, principalmente este ltimo, se davam bem com o novo pai.
      Antes de partirem, Tom a tinha chamado de lado e contara que sabia tudo sobre a verdadeira paternidade do garoto.
      - Para ser honesto, eu j havia adivinhado. Oliver  a cara de seu pai... Acho que Fanny devia contar a verdade ao seu irmo, mas sua madrasta no concorda
comigo... Pelo menos por enquanto...
      Lucy, todavia, apoiava-o plenamente.
      Quanto mais cedo Oliver soubesse a verdade, menos traumatizante esta lhe seria. E tinha f na habilidade de Tom para fazer Fanny compreender que esta era a
melhor atitude.
      Fanny insistira que no se casaria com Tom at que se passasse um ano aps a morte do ex-marido, o que significava que teria de adiar seus planos de vender
a casa, refletiu Lucy mais tarde, j na cama.
      Seus tios asseguravam-lhe que poderia morar com eles sem problema, porm no podia, e nem queria, depender deles para sempre.
      Antes de o beb nascer teria de tomar uma deciso sobre o futuro. Se vendesse a casa da fazenda, poderia comprar um pequeno apartamento e investir o resto
do dinheiro em letras de cmbio que assegurassem uma renda razovel. E ainda havia os livros que continuaria a escrever.
      Mas seria o suficiente para que pudesse sustentar a si e ao beb?
      Precisava pensar... Queria ser independente, refletiu, rolando na cama, agitada. Gostaria de provar que era capaz de enfrentar qualquer situao de cabea
erguida. "Provar para quem? Para Kevin?", indagou racional, numa tentativa v de conter a dor que dilacerava o peito.
      Na manh seguinte, levantou cedo, tomando o cuidado de no acordar os tios que gostavam de dormir at mais tarde no domingo.
      L fora o sol brilhava, dispersando a fraca nvoa que preenchia os vales ao longe: sinal de que o vero minguava, preparando a paisagem para a chegada do outono.
      Sentindo um pouco de frio, desceu as escadas em direo  cozinha, a fim de fazer um caf. Tomou-o devagar, com o pensamento distante e os olhos fixos num
ponto qualquer da parede.
      No saberia dizer o que a fez levantar-se da mesa num impulso, deixar a casa e tomar o caminho de terra at o solar. Caminhou decidida at deparar-se com a
estrutura antiga, bero da famlia Martin, palco de tantas alegrias... e tristezas. O casaro continuava imenso, slido e imponente.
      Como algum incapaz de resistir  emoo do perigo, Lucy girou a maaneta devagar, sabendo que a Sra. Isaacs raramente deixava a porta trancada.
      L dentro, tudo tinha um ar desolado e triste de abandono. Os mveis pesados estavam cobertos de poeira, as cortinas gastas e sem vida. Nenhuma flor, nenhum
movimento. Nada que lembrasse os dias felizes que passara na companhia de Kevin.
      Kevin...
      Lucy fechou os olhos, angustiada. Ainda podia ouvi-lo dizendo aquelas palavras duras e cruis, acusando-a e ferindo-a-
      Estremeceu, colocando a mo no ventre. No importava o que iria acontecer agora: no deixaria o filho sofrer pela omisso do pai...
      - Lucy.
      Por um momento, ela teve a certeza de que devia estar delirando, imaginando ter ouvido a voz dele.
      Virou-se, apenas para constatar que no era um sonho: Kevin estava a trs passos dela.
      Lucy engoliu em seco, incapaz de acreditar que ele estava ali, at que Kevin deu um passo, provando que era real.
      Mais uma vez, tudo ao redor pareceu ficar longe. Desmaiar era uma sada covarde e ridcula, ainda teve tempo de pensar, mas muito, muito eficaz...
      Quando abriu os olhos, estava deitada no sof, as pernas erguidas por almofadas. Ainda lutava para entender o que havia acontecido, quando ouviu de novo a
voz profunda de Kevin.
      - J chamei o mdico... Ele deve estar chegando.
      Entrou em pnico, ento, querendo sentar-se e dizer que estava bem, mas a onda de nusea que a dominou, alertou-a de que no devia fazer movimentos muito bruscos.
      Sentia-se to fraca e tremula, que no protestou quando Kevin obrigou-a a se acomodar melhor.
      - O que... o que est fazendo aqui? Pensei que estivesse na Amrica.
      - Estava - ele admitiu, frio.
      Que coisa mais ridcula havia dito, quando tinha tantas outras mais importantes para conversar com ele, pensou Lucy, desviando o olhar para no ver a zombaria
nos olhos cinza. Queria levantar-se e correr to rpido quanto pudesse, porm no possua foras.
      - No devia ter chamado o mdico - disse, seca. - J estou bem. Foi apenas o choque...
      - De me ver?
      A ironia da pergunta no lhe passou despercebida e, angustiada, Lucy teve a viso embaada pelas lgrimas.
      - Lucy, eu...
      A urgncia na voz rouca a fez abrir os olhos, contudo, antes que pudesse fit-lo, ouviram um carro l fora.
      Kevin suspirou, caminhando para a porta.
      - Deve ser o doutor... No se mova.
      Voltou em segundos, acompanhado pelo mdico.
      Todavia no era o velho e gordo Dr. Hartley, com quem estava acostumada, e sim um homem muito mais jovem que, provavelmente, devia ser seu novo colega.
      - Muito bem, qual  o problema?
      - Ela desmaiou - adiantou-se Kevin, antes que Lucy pudesse abrir a boca.
      - O que aconteceu? O jovem mdico franziu a testa. - Caiu? Bateu a cabea em algum lugar?
      Kevin a olhava e ela umedeceu os lbios sentindo o medo invadi-la. Mais uma vez, tudo tornou a ficar escuro. Antes de sucumbir, porm, Lucy teve a impresso
de ouvi-lo resmungar com uma ansiedade que no poderia ser por causa dela.
      Desta vez, quando acordou, estava no quarto que costumava ocupar no solar. O mdico estava sentado numa cadeira, olhando pela janela, mas, como se pressentisse
que ela recobrava os sentidos, olhou em sua direo, sorrindo.
      - No entre em pnico. No h nada grave com voc. Apenas falta de vitaminas, creio eu, o que  comum em mulheres grvidas. Apesar de que, no seu caso...
      Ele fez uma pausa e Lucy sentiu o corao apertar.
      - Vai ter que se cuidar, principalmente nas ltimas semanas de gravidez - continuou ele. - Nada de esforos fsicos ou mentais. No  casada, ?
      Lucy negou, com a cabea.
      - Humm. Tem algum que possa cuidar de voc?
      - Meu tio e minha tia... sussurrou aflita. - Meu beb... A expresso do mdico suavizou-se por um sorriso.
      - Voc e seu beb vo ficar bem, contanto que seja sensata - garantiu-o. - E isso inclui no se preocupar demais. Esta deficincia pode resultar num parto
prematuro, o que ns, mdicos, gostamos de evitar.
      Ao ver que ela continuava alarmada, o doutor segurou-lhe a mo.
      - Tenho certeza de que vai dar tudo certo. Apenas quero que passe uns dois dias no hospital, fazendo alguns exames, Assim poderemos constatar o grau dessa
deficincia e estabelecer o tipo de tratamento. Na maioria das vezes, vitaminas por via oral so o suficiente; e nos casos mais srios preferimos aplicar injees
intravenosas. Bem... Ele sorriu. - Vai ficar aqui mesmo ou prefere outro lugar?
      - Vou para a casa da fazenda, aqui perto - balbuciou Lucy, sentindo uma enorme fraqueza.
      - Eu preferia no remove-la daqui, pelo menos por hoje. Voltarei para v-la  tarde. H algum na casa da fazenda que...
      - Minha tia - apressou-se ela, pensando em como os tios deviam estar preocupados com seu paradeiro.
      O que teria acontecido com ela se Kevin no estivesse ali? Contudo, refletiu, se ele no houvesse aparecido, no teria desmaiado.
      Kevin... Onde estaria agora? No podia saber que ela estava grvida!
      - Vou embora agora - falou o mdico. - Aconselho-a a descansar um pouco. Vou avisar sua tia de que est aqui. Lembre-se, nada de preocupaes.
      Lucy ouviu os passos do doutor se afastando e, pouco depois, o ronco do motor de seu carro.
      De repente, tudo ficou em silncio. Onde estaria Kevin? O que diria quando soubesse que ela teria de ficar ali... pelo menos at a noite? Devia ter dito ao
mdico que aquilo no seria possvel, mas ficara to preocupada com a segurana do beb...
      A porta do quarto se abriu e, para sua surpresa, Kevin entrou, trazendo uma xcara de ch.
      - O Dr. Ellis falou que poderia beber isto - disse, colocando o ch no criado-mudo, ao alcance dela.
      Em vez de deix-la, no entanto, caminhou para a janela. Ficou parado ali por vrios minutos, at que se virou, encarando-a. Sua expresso era tensa, os olhos
cinza cheios de preocupao.
      - Lucy, precisamos conversar.
      Ela respirou fundo, combatendo o pnico que ameaava domin-la.
      - Sobre o qu? Indagou, desviando o olhar para as mos tremulas. Pensei que j houvesse dito tudo.
      - Lucy, sabe que eu... Esquea - completou ele, com uma voz aflita. - Sabe muito bem sobre o que temos de conversar. Precisamos pensar no futuro de nosso filho.
      Ela ergueu a cabea para fit-lo. Seu rosto estava plido como cera. Queria negar, dizer que o filho era dela... e s dela, mas estava chocada demais. Como
ele havia descoberto?
      - Nem pense em negar - Kevin continuou. - Quando o Dr. Ellis me disse que estava grvida, soube imediatamente que o filho era meu.
      - Como pode ter tanta certeza? Ele a fitou nos olhos.
      - A menos que, por algum milagre, tenha persuadido Fred a... O modo como ele a olhava deu a Lucy a certeza de que no adiantava mentir. Ergueu o queixo, encarando-o.
      - Muito bem, Kevin... O filho  seu. Mas no precisa se preocupar. No vou lhe pedir nada. Nem agora nem nunca.
      - No vai precisar - concordou ele. - Vou estar ao lado de meu filho para v-lo crescer. Tem duas alternativas, Lucy, ou aceita se casar comigo, ou a levo
 justia para provar que tenho muito mais condies de criar esta criana do que voc.
      O tempo pareceu parar para ela.
      De algum modo, conseguiu evitar um novo desmaio, fechando os olhos com fora e respirando fundo.
      - Por que, Kevin? Perguntou com a voz to dbil, que mal pde ouvir a si mesma. - No h razo para que se sinta responsvel pelo que aconteceu.
      - Lucy, temos que conversar sobre isso com calma - ele a interrompeu. - O Dr. Ellis me falou sobre seu estado.
      Ela virou a cabea, tentando esconder dele as lgrimas que rolavam-lhe pela face. No queria que Kevin soubesse daquela criana. Sentiu o peito se apertar
com a dor e um soluo escapou de sua garganta sem que pudesse evitar.
      H menos de um ms teria ficado radiante por ele t-la pedido em casamento... Mas agora... O que Kevin queria, afinal? Seu filho?
      - Precisa de cuidados especiais. Morando sozinha no...
      - No vou estar morando sozinha - rebateu ela. Os olhos cinza fitaram-na ameaadoramente:
      - Se pensa que vou deixar Summers criar meu filho...
      - Isso no tem nada a ver com Fred! Explodiu Lucy. - Estou falando de meus tios: eles me ofereceram um lar.
      - Mas eu no estou lhe oferecendo apenas um lar. Pense nisto. Acha mesmo que me rejeitar ser benfico para a criana? Ela precisa de ns dois! Como vai se
sentir se...
      Kevin se interrompeu ao ouvir a campainha.
      - Devem ser meus tios - Lucy falou, aptica. - O Dr. Ellis disse-me que ia passar na casa da fazenda para avis-los... ela o olhou, amarga. - O destino no
foi justo trazendo-o de volta justamente agora... Eu no tinha inteno de lhe contar sobre o beb. Por que voltou, Kevin? Fanny me disse que no faria isso.
      - Acha mesmo que eu iria embora para sempre? Ele indagou com voz rouca, uma expresso estranha no olhar.
      Ela virou a cabea, incapaz de encar-lo. Se o fizesse, iria revelar toda sua dor, gritar que, apesar de tudo o que havia acontecido, tinha se agarrado  esperana
de que ele realmente a amasse, esperana que estivesse to arrependido quanto ela das palavras rduas que haviam trocado.
      - No cheguei a pensar nisso - resolveu responder, fria, punindo a si mesma por negar seu amor.
      - Imagino... Devia estar muito ocupada consolando Fred - ele falou, spero. - Alis... Kevin parou na porta, voltando-se para ela - decidi ficar com o solar.
Minha me disse que gostaria de voltar um dia para v-lo. Afinal, cresceu aqui. E agora que vou ser pai... Quem sabe meu filho no herde a obsesso do seu pai pelo
lugar... Pense nisso, Lucy. Pense em tudo o que pode estar negando a seu filho, pelo simples prazer de me aborrecer. Ser que  assim to egosta?
      Foi um duro golpe. Um golpe que ela custou a assimilar.
      Kevin teria lhe oferecido o solar como uma espcie de suborno?
      Ou estava deixando sua imaginao ir longe demais?
      - No pode querer se casar comigo...
      Disse isso numa voz to insegura que pensou que ele no lhe daria resposta. Todavia Kevin parou mais uma vez, voltando-se para ela.
      - No? Talvez. Mas vou fazer tudo, qualquer coisa, para manter meu filho longe da influncia de Summers.
      Depois que Kevin saiu, Lucy continuou parada, tremendo dos ps  cabea. S agora percebera a extenso da antipatia entre Kevin e Fred. Desde pequena, sabia
que ela existia. Porm esta antipatia ameaava transformar-se em dio. E no era exagero.
      Kevin estava disposto at mesmo a casar-se com ela, para evitar que o filho tivesse qualquer contato com Fred.
      Uma vez casada com Kevin, era bvio que ele poria um fim em qualquer relacionamento que ela pudesse manter com Fred. E tudo por bobagem. Lucy no gostava do
primo. E j havia dito isso a Kevin. Mas tambm fingira estar aliada a Fred, lembrou, mordendo os lbios. Alimentara a raiva que Kevin sentia por ele.
      Seus devaneios foram interrompidos quando a porta se abriu. Margareth a fitou, o rosto claro marcado pela preocupao.
      - Lucy... Como est se sentindo? O Dr. Ellis nos avisou que estava aqui e... Ela se interrompeu, ao ver a sobrinha olhar a porta, ansiosa.
      - Kevin est conversando com seu tio - disse, como se adivinhasse seus pensamentos.
      Como sempre, a perspiccia da tia a surpreendeu. O ar ingnuo de Margareth nunca lhe permitira julg-la acertadamente.
      - O Dr. Ellis lhe falou sobre a minha provvel deficincia de vitaminas?
      - Rapidamente. Parece que vai ter que ficar no hospital para fazer alguns exames.
      - Sim. Ele voltar esta tarde para confirmar minha internao.
      Margareth fitou a sobrinha, atenta. Era bvio que Lucy estava preocupada com mais alguma coisa.
      - Qual  o problema, querida? Lucy ergueu o olhar, engolindo a seco.
      - Kevin quer se casar comigo - disse, inexpressiva. - J sabe sobre o beb.
      - Lucy! Que maravilha!
      A reao de Margareth foi to diferente da dela, que Lucy levou algum tempo para entend-la. Quando o fez, tentou sorrir, sem muito sucesso.
      - Ele no me ama, tia - disse, devagar. - Quer se casar apenas por que... - estancou, no podendo revelar os sentimentos de Kevin em relao a Fred.
      -...Porque acha que  a coisa mais certa - Margareth completou, com segurana. - E tem razo. Uma criana precisa de ambos os pais, Lucy. Sei que deve estar
muito confusa, mas... querida, acho que deve considerar bem a proposta de Kevin.  claro que eu e seu tio iremos apoi-la, seja qual for sua deciso. Porm acho
que...
      - Que eu devia aceitar a proposta dele?
      De sbito, Lucy sentiu-se deprimida... Trada, quase.
      Queria gritar que no ia se casar com um homem que no a amava, mas no encontrou foras. Alm disso, Margareth podia achar que estava sendo egosta, privando
o filho de crescer sob a guarda segura e amparada do pai.
      "Qual era o problema com ela, afinal?" perguntou-se, irritada. Como fora se tornar to fraca e indecisa? Estava agindo como Fanny...
      De repente, lembrou-se de Oliver, que cresceria sem saber a verdade sobre sua paternidade. Seria possvel que estivesse planejando o mesmo para seu filho?
      A pergunta a atormentou por dois dias seguidos, no deixando nem mesmo que se concentrasse nos exames a que teve de se submeter.
      No final, ficou provado que sua deficincia no era to grande assim.
      - Isso no quer dizer que podemos ignor-la - alertou o Dr. Ellis. - Todavia no precisar tomar doses muito elevadas de vitamina. O Sr. Bradford me informou
que iro para a Flrida, em breve. Isso  bom. Os americanos esto muito adiantados em termos de cuidados pr-natais. O sol tambm vai ajud-la a relaxar um pouco.
Est muito tensa... Acho que at demais. E isso no faz bem ao beb.
      - Est querendo me dizer que eu poderia ter um aborto? Lucy empalideceu, alarmada.
      - Sempre existe a possibilidade - concordou ele. - No tanto pela deficincia de vitaminas, mais por seu estado emocional. Precisa se acalmar, Lucy. Pelo que
as enfermeiras me disseram, no tem dormido. Os trs primeiros meses sempre  um perodo de ansiedade, principalmente quando se trata do primeiro filho. Algumas
mulheres os atravessam sem problemas... outras no. Tem que cuidar muito bem de sua sade.
      Aps a sada do mdico, Lucy deitou-se, fechando os olhos. Porm o sono no vinha. Tinha o direito de arriscar a vida do beb s porque no podia suportar
a idia de Kevin casar-se com ela por obrigao?
      Virou-se na cama do hospital, agitada. Fora informada de que poderia ir para casa no dia seguinte, tendo apenas que esperar o resultado de mais alguns exames.
      "Calma, Lucy", disse para si, "fique calma"...
       tarde seus tios Leo e Margareth foram visit-la.
      - Nossa! Isto aqui parece mais uma sute de hotel de luxo do que um quarto de hospital! Comentou a tia dela, sentando-se num pequeno sof.
      - Cortesia de Kevin - Lucy explicou, aptica.
      - Como est se sentindo, querida? Margareth estudou o rosto plido da sobrinha. - O Dr. Ellis nos contou que seu problema no  to grave assim. No entanto,
est preocupado com voc, Lucy. Estava dizendo a Kevin que...
      - Kevin? Lucy fitou a tia, ansiosa. - Kevin est aqui com vocs?
      - Est com o mdico... Margareth estava apreensiva. - Lucy, pensou na proposta dele? Por favor, no ache que eu e Leo estamos querendo nos livrar de voc.
Apenas acreditamos que seria melhor ficar com ele, principalmente depois do que o Dr. Ellis nos disse. Eu e seu tio costumamos sair muito, tendo que cuidar do nosso
stio, voc sabe. Como vamos deix-la sozinha? Como disse, no estamos querendo fugir  responsabilidade, querida, mas... no seria melhor ficar com Kevin? Afinal
de contas, ele  o pai da criana... e voc o ama.
      Sim. E, era esse o problema. Se no o amasse tanto, seria muito mais fcil tomar uma deciso. Mas era uma agonia imaginar-se vivendo na companhia dele, sabendo
que Kevin a desprezava e importava-se apenas com o filho.
      Teria foras para suportar tudo isto?
      S quando o horrio de visitas chegou ao fim e Kevin no veio, Lucy percebeu o quanto estava desapontada. Queria v-lo. Era como se estivesse viciada, refletiu,
precisando dele, mesmo sabendo que a destruiria.
      Tomando-a de surpresa, Kevin veio na manh seguinte, no instante em que estava tendo alta. Levou-a at o carro com uma expresso sria e ilegvel.
      Lucy o olhou, nervosa. Onde estariam os tios dela?
      Ele no disse uma palavra durante todo o trajeto. Apenas quando passou direto pela casa da fazenda, em direo ao solar.
      - No se preocupe - disse, lacnico. - No estou lhe seqestrando. S quero ter uma conversa com voc antes de devolv-la aos seus tios.
      Ela j sabia qual seria o assunto.
      - No precisamos conversar, Kevin - argumentou, sentindo-se fraca. - Voc venceu. Vou me casar com voc. Mas, por favor, tudo o que quero fazer agora  me
deitar...
      A voz dela tremeu e Kevin brecou o carro, alarmado.
      A princpio, Lucy pensou que estivesse zangado. Porm, ao ver a expresso do rosto moreno, percebeu que ele tinha medo.
      Medo de perder o filho, pensou, angustiada, enquanto Kevin a sacudia, fazendo-a voltar da escurido a que quase sucumbira.
      - Droga, Lucy! Ele praguejou, quando viu que ela no chegara a desmaiar. -Cada vez que faz isso tira anos da minha vida! J imaginou o que pode acontecer se
seus tios a deixarem sozinha? J pensou? Repetiu, preocupado.
      Claro que sim. Fora por este motivo que concordara em se casar com ele. No era justo obrigar Margareth e Leo a sarem de sua rotina normal para cuidar dela
vinte e quatro horas por dia.
      Mas Kevin era saudvel o bastante para carregar este fardo.
      E, pelo bem da criana, no faria objeo.
      - No me perturbe, Kevin - viu-se falando, com dificuldade. - No posso evitar. Conseguiu o que queria. Concordei em me casar com voc. Agora, por favor, me
leve para casa!
      Sem dizer uma palavra, ele manobrou o carro e fez o que Lucy pedia.
      Quis acompanh-la e, como Lucy havia previsto, Kevin fez questo de contar aos tios dela sua deciso.
      Margareth no pde esconder seu contentamento, embora o tio parecesse mais preocupado e ansioso, no tirando os olhos da sobrinha um minuto.
      - Vai ficar aqui at que possamos nos casar - instruiu Kevin. - Consegui uma enfermeira para ajudar Margareth.
      - No precisa de enfermeira, Kevin! Lucy protestou.
      - No discuta, Lucy, no  bom para voc. Se no quer pensar em si mesma e em nosso filho, pelo menos pense em facilitar o servio de seus tios.
      Lucy ficou calada. Era muito mais simples ceder, permitir que Margareth a guiasse at o quarto, acomodando-a na cama, Deixar o sono carreg-la para longe da
realidade.
      Pela primeira vez, deixaria as pessoas assumirem as rdeas de sua vida. No fundo, pensou, talvez fosse exatamente do que estivesse precisando.
      Desde o princpio desejara casar-se com Kevin e, apesar de saber que ele no a amava, este desejo persistia. Quem sabe, por isso, houvesse cedido to facilmente.
      Fechou os olhos, tentando apagar aqueles pensamentos. No. Casaria-se com Kevin por medo de perder o filho. Ser?

     CAPTULO IX
      "...Que cura a alma seu mal profundo, Que o bem nos entra no corao..."
      Lucy e Kevin casaram, uma semana depois, em uma pequena capela. Os tios dela, Fanny, Tom e as crianas foram as testemunhas.
      As duas nicas pessoas alheias ao estranho clima durante a cerimnia eram Oliver e Carol, sendo que a irmzinha se queixava do fato de Lucy no ter precisado
de uma dama de honra, j que nem mesmo usava o tradicional vestido branco. Ela trajava um tailleur de linho rosa bem claro, que Margareth lhe comprara em Londres.
Estava muito exausta fsica e emocionalmente para se preocupar com roupas e pequenos detalhes.
      - Pelo menos Fred teve o bom senso de no aparecer - comentou Kevin, ao deixarem a capela. - Ou foi por covardia?
      Lucy recusou-se a responder. Kevin podia provoc-la o quanto quisesse. Era melhor que continuasse achando que era apaixonada por Fred do que descobrir a verdade
sobre seus sentimentos.
      A desculpa que Kevin havia dado para o fato de os pais no estarem presentes na cerimnia tinha sido que o padrasto estava doente.
      Nos dias anteriores ao casamento decidira que a nica maneira de suportar o martrio seria manter-se afastada de Kevin tanto quanto possvel, o que significava
no fazer nenhum tipo de pergunta de carter pessoal.
      Aps o casamento, teve que suportar ainda a pequena recepo que os tios haviam organizado num hotel local. Mas, apesar dos olhares preocupados que vez ou
outra lhe lanavam, todos pareciam estar se divertindo.
      Voariam para a Flrida na manh seguinte. Os negcios de Kevin exigiam que morassem nos Estados Unidos.
      Lucy estremeceu, antecipando a solido de sua nova vida, to longe de tudo e todos com que estava acostumada. Verdade que a me de Kevin era sua tia, porm
isto no alterava o fato de que eram estranhas uma para a outra.
      Ser que iria aceit-la como esposa do filho? Como reagiria quando soubesse que estava grvida de Kevin?
      Lucy ergueu o queixo, com orgulho. Aquele era um assunto em que no permitiria intromisso. Se Kevin no contasse  me sobre seu estado, ela contaria.
      - Se estas lgrimas so para Summers, est perdendo seu tempo.
      A voz fria e incisiva em seu ouvido fez Lucy endireitar-se na poltrona. Sua cabea virou-se desafiadoramente para a pequena janela do avio.
      Estavam a bordo h vinte minutos. Sentia-se ainda to confusa e deprimida com os ltimos acontecimentos, que mal podia compreender que voava em direo a uma
nova vida, num pas estranho.
      Todos haviam ido ao aeroporto para se despedir deles e, estranhamente, conseguira manter-se firme, com um sorriso desenhado nos lbios.
      Abraara e beijara Carol, prometera a Oliver que iria escrever, passara pelo abrao e lgrimas de Fanny e dos tios tambm. Agora, sozinha com Kevin, no conseguia
mais esconder seu desespero, lgrimas amargas corriam-lhe pela face ainda abatida.
      - Tome.
      Kevin estendeu-lhe um leno, um gesto to em desacordo com seu comportamento, que Lucy levou alguns segundos para aceit-lo.
      Seus dedos se tocaram e o contato fez com que ondas de calor cortassem o corpo dela.
      Nervosa, Lucy disse a si mesma que estava apenas sofrendo os efeitos da cabina pressurizada. Secou o rosto, percebendo o perfume de Kevin no pequeno pedao
de pano. Comeou a tremer, prendendo a respirao quando, de repente, ele curvou-se sobre ela.
      Por um segundo, seus olhos se encontraram. Os dela confusos e assustados, os dele frios e distantes. S ento se deu conta de que Kevin estava apenas soltando
seu cinto de segurana. Chegara a pensar que...
      Mortificada por seus pensamentos, apertou o leno nervosa, virando-se para a janela mais uma vez. Por que achara que iria beij-la? Desde que a tinha pedido
em casamento, Kevin no encostara um nico dedo nela. Sabia quais eram os sentimentos dele e, mesmo assim, havia suposto ver uma centelha de desejo em seus olhos.
      Se Kevin descobrisse o que estava pensando, sem dvida iria crucific-la com seu sarcasmo. Porm, quando as emoes eram governadas pela lgica?
      Por mais absurdo que fosse, o que mais queria era que ele a abraasse e assim poder encostar sua cabea no peito largo.
      Ansiava pela segurana daqueles braos, protegendo-a de seus medos e receios, pela vida que a esperava.
      - Percebi que no tem o menor interesse por mim ou por minha famlia... Kevin quebrou o silncio, a voz carregada de amargura. - Contudo, sugiro que seja simptica
ao chegarmos  Flrida, caso contrrio, minha me ficar desconfiada.
      - Podemos dizer-lhe a verdade. Kevin fulminou-a com o olhar.
      - Ela j tem preocupaes suficientes com a sade de meu padrasto. No que diz respeito aos meus pais, Lucy, nosso casamento  perfeitamente normal, e quero
que continuem pensando assim.
      Sem querer, ela viu-se invejando a me dele. Kevin devia am-la muito para proteg-la da mentira que os cercava.
      - Eles vo ficar surpresos por... por termos nos casado to cedo - gaguejou, nervosa.
      - No. Sabem que vai ter um filho meu - Kevin revelou, seco, embora Lucy percebesse que ele queria falar mais alguma coisa.
      Sabendo que no adiantaria perguntar o qu, suspirou, resignada.
      - Imagino que devem ter ficado chocados.
      - Mais surpresos do que chocados.
      Kevin sorriu, irnico, quando o fitou, intrigada.
      - Minha me sabe que no sou nenhum garoto, Lucy. Mas, apesar de ela no ter dito nada, tenho certeza de que ficou surpresa por ter sido descuidado a ponto
de deixar que isto acontecesse.
      Lucy respirou fundo, percebendo a acusao implcita naquelas palavras. Se fosse ligar para todas as provocaes de Kevin, ficaria louca em pouco tempo.
      Qualquer noiva fica nervosa na hora de conhecer a sogra, mas, no caso dela, a ansiedade era intensificada pelo fato de que a me dele era tambm sua tia.
      E ainda por cima havia a inimizade que o pai dela sempre alimentara pela irm. Nessas circunstncias, dificilmente poderia esperar que a sogra a recebesse
de braos abertos.
      - Est se sentindo bem? Kevin perguntou ao v-la estremecer.
      - Estou.
      Pelo menos fisicamente no tinha do que se queixar. As vitaminas que vinha tomando pareciam j estar fazendo efeito. No sentia mais a fraqueza do incio da
gravidez e, a cada dia que passava, parecia recuperar uma parte de sua vitalidade.
      O vo era longo e, aps o almoo, Lucy adormeceu, tomando o cuidado de manter-se afastada de Kevin. O que a deixou ainda mais embaraada quando acordou com
a cabea apoiada no ombro dele.
      Para qualquer um que no conhecesse a realidade entre os dois, deviam ter parecido um casal apaixonado, refletiu enquanto endireitava-se e Kevin removia o
brao de seus ombros.
      - Sinto muito - murmurou, com voz sumida.
      - Por qu? Porque no sou Summers?
      Lucy fechou os olhos, suspirando. Kevin insistia em falar de Fred. Com certeza, achava que com isso pudesse tortur-la. Irrit-la, isso sim.
      Olhou pela janela do avio e seus olhos perderam-se nas nuvens brancas.
      Como a famlia dele a receberia? Onde Kevin morava? Teria sua prpria casa ou...
      - Hoje  noite vamos ficar com meus pais - disse, de sbito, como se seguisse o curso de seus pensamentos. - Eles acham que nos casamos por amor, Lucy, e vamos
ser obrigados a alimentar esta impresso. Se fizer qualquer coisa para prejudicar a sade de Harry, qualquer coisa... Ele a fitava, ameaadoramente.
      Lucy o olhou, angustiada. Que tipo de mulher Kevin achava que era?
      - No precisa fazer ameaas, Kevin - disse, fria. - Estou to ansiosa para fazer sua famlia acreditar que somos felizes quanto voc... Nosso filho vai crescer
entre eles. No quero que o considerem um rejeitado ou que oua comentrios amargos a respeito dos pais.
      - Nosso filho? Kevin indagou, a expresso tornando-se mais suave. - Est to convencida assim de que vai ser um menino?
      Lucy considerou a pergunta e chegou  concluso de que no se importava nem um pouco com o sexo do beb.
      - "Nosso filho" saiu por fora de expresso - explicou. - Onde vamos morar, Kevin? Perguntou, encorajada ao ver que parecia mais receptivo.
      - No momento, tenho um apartamento.  no centro da cidade, perto do meu trabalho. Mas pretendo vend-lo e comprar uma casa maior, mais adequada a uma famlia.
Passei anos preso num apartamento quando criana e no quero isso para meu filho. - Ele suspirou, parecendo to cansado quanto ela. - Minha me provavelmente vai
insistir para ficarmos com eles, mas, nas atuais circunstncias, no acho uma boa idia. Seria penoso demais ter que fingir vinte e quatro horas seguidas.
      - Concordo - Lucy respondeu.
      Era bom saber que Kevin pensava do mesmo modo que ela. Aquilo parecia torn-lo mais humano, mais semelhante ao Kevin que conhecera nos dias tranqilos, anteriores
quela noite fatdica.
      - Acho bom avis-la de que vai ter de se sujeitar a uma srie de perguntas de minhas irms - ele alertou. - As duas tambm moram na cidade com as famlias
e...
      - Naturalmente devem estar curiosas para conhecer a escolhida do "irmozinho" - Lucy completou, usando a mesma ironia que ele costumava utilizar.
      Kevin abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompido pela voz do capito anunciando a aterrissagem.
      - Kevin! Kevin, aqui!
      Uma mulher alta e morena acenava para eles, agitada. Lucy sentiu o corao dar um salto ao reconhecer nela as mesmas feies de seu pai.
      Ento aquela era a me de Kevin... sua tia.
      Esbelta e elegante, trajava um vestido leve, o cabelo escuro preso num coque bem-feito. As unhas longas e vermelhas realavam os anis de brilhante.
      De sbito, Lucy sentiu-se deslocada, consciente de que seus cabelos estavam em desalinho, o tailleur branco amassado, a maquilagem j gasta pelas longas horas
de vo.
      Surpresa, viu-se envolvida num longo abrao, que lhe varreu todos os medos. Olhos cinza, iguais aos de Kevin, fitavam-na, entusiasmados.
      - Uma verdadeira Martin! Disse a mulher, o rosto clssico e bonito iluminado por um sorriso. - Devia ser o orgulho do pai. - Uma sombra passou por seus olhos.
- Eu teria ido ao enterro de George, se Harry no estivesse to doente, Lucy, Lamentei no poder fazer isso. Ele era meu irmo, afinal... Bem... ela sorriu mais
uma vez. - Como vai me chamar? Brincou. - Talvez seja melhor me chamar de Sophia, como as filhas de Harry...
      - Deixe a conversa para depois - Kevin interrompeu, beijando-a no rosto. - Lucy no est acostumada com o calor e vai acabar desmaiando se no a tirarmos logo
daqui. A me dele a fitou, preocupada.
      - Oh, querida, me desculpe. Eu havia esquecido... Parece mesmo muito plida, pobrezinha. Kevin contou-me sobre o beb. - Ela sorriu, encorajadoramente. - Admito
que, a princpio, fiquei surpresa mas, afinal, o que pode ser mais maravilhoso do que ganhar uma sobrinha, uma nora e um netinho ao mesmo tempo?
      Falando sem parar, como se quisesse acabar com o embarao e o desconforto da nora, Sophia guiou-os at o carro. Dirigia com cuidado e competncia, observou
Lucy, sentindo a ansiedade que sofrera durante o vo, abandon-la aos poucos.
      - Como est Harry? Kevin perguntou  me, enquanto deixavam a estrada principal e tomavam uma menor que margeava a costa.
      - Melhor, mas louco para voltar ao trabalho... Sabe como ele . O Dr. Schindler mandou que armazenasse energia, mas Harry no tem sossego. - Ela se voltou
para Lucy. - Harry tem um problema em uma das vlvulas do corao. Vai ter que se submeter a uma operao, porm o Dr. Schindler gosta de deixar seus pacientes muito
tranqilos antes de partir para uma cirurgia. Harry s confia em Kevin para dirigir os negcios e Deus sabe o que suportei enquanto estava fora. Quando houve aquele
problema numa das construes, pensei que Harry fosse ter uma recada. Sinto ter arrancado Kevin de voc daquela maneira, no meio da noite - Sophia fitou o filho.
- Ainda bem que conseguiu pegar aquele vo, Kevin. Eu estava realmente em pnico.
      Lucy olhou o marido. No sabia que havia deixado o solar s pressas... Seria por isso que ele no a tinha avisado? Teria vindo para os Estados Unidos na mesma
noite em que discutiram?
      Um fio de esperana nasceu dentro dela, para morrer em seguida, quando se lembrou que, mesmo por coincidncia, se Kevin houvesse sido chamado naquela noite,
poderia ter telefonado ou escrito para ela. Podia t-la procurado na volta.
      Mas no. Se no tivesse ido ao solar e se deparado com ele, duvidava que o teria visto novamente.
      - J estamos quase chegando - comentou a me dele, atribuindo seu silncio ao cansao. - As meninas esto loucas para conhec-la. Avisei que no quero visitas
esta noite. Precisa descansar. - Ela sorriu para Lucy, olhando depois para o filho.
      - Meryl me contou que ganhou vinte dlares s suas custas, Kevin. Parece que apostou com Christie que voc se apaixonou por Lucy na primeira vez que foi para
a Inglaterra, h doze anos e agora est reclamando o dinheiro...
      Lucy olhou o marido. Seu rosto continuava impassvel.
      - No se assuste com a franqueza daquelas duas, querida - continuou Sophia. -  comum nos americanos. Dizem que sou muito britnica, e me acusam de ter criado
Kevin do mesmo jeito.
      Estavam passando por um novo distrito e Lucy olhou ao redor, perguntando-se se ela e Kevin morariam num lugar assim. Sentiu um n apertar-lhe a garganta, lutando
contra as lgrimas que insistiam em embaar-lhe a viso. O que o destino reservava para ela? Provavelmente anos e anos destitudos de qualquer gesto de amor por
parte de Kevin.
      - J estamos chegando.
      Sophia Bradford saiu da avenida principal, dobrando numa rua perpendicular, margeada por lindas rvores e enormes manses. Subiu na calada de uma delas, ativando
os portes automticos.
      Plantas e arbustos escondiam a construo, porm,  medida que o carro avanava, Lucy pde ver a riqueza e o bom gosto estampados na fachada da residncia.
      Era antiga, porm muito bem conservada, as paredes imaculadamente brancas adornadas por pequenas sacadas pintadas de azul-escuro, de onde caam cachos e cachos
de pequenas flores.
      - Esta casa foi construda nos anos trinta - explicou Sophia. - Ns a compramos h cinco anos, quando Harry se aposentou.  verdade que  grande para ns dois,
todavia nem eu nem ele gostamos de lugares apertados...
      Pararam em frente  casa e, assim que desceram, a porta principal foi aberta por uma sorridente governanta.
      - Esta  Helena - apresentou Sophia. - Ela e o marido, Toms, cuidam da casa. Vamos, entre. Meu marido est no escritrio? Perguntou a Helena.
      - No, estou aqui - uma voz respondeu.
      Harry Bradford no era muito mais alto do que a esposa: sua pele morena era marcada pelo tempo e os cabelos, grisalhos e fartos. Parecia um pouco fraco, pensou
Lucy, enquanto estendia a mo, mas mesmo assim reconheceu a integridade e a astcia nos olhos castanhos, qualidades que Kevin tanto apreciava nele. Ali estava um
homem que transpirava confiana e respeito.
      - Ento esta  a garota que o agarrou, hein?  muito bem-vinda aqui, minha querida... disse corts, para Lucy. - Muito bem-vinda mesmo. H tempos eu vinha
dizendo a este rapaz que j era hora de ele "sossegar"...
      - Vamos jantar em uma hora, Helena - Sophia instruiu a governanta. - No quer pedir a Toms que leve as malas para o quarto de hspedes? Ela virou-se para
Lucy. - Vai querer tomar um banho e trocar de roupa antes de comer... Vou mostrar-lhe seu quarto enquanto os dois pem a conversa sobre os negcios em dia.
      A sute destinada a Lucy era na extremidade oposta da casa, dando para um lindssimo gramado e deslumbrantes canteiros.
      - A piscina fica  direita - mostrou Sophia atravessando uma pequena sala de estar, ricamente mobiliada. - E depois dela fica a quadra de tnis. Voc joga?
      - No muito - confessou Lucy. - Embora costumasse jogar bem na escola.
      - Pois o tnis  uma verdadeira mania por aqui. Todo mundo pertence a algum clube ou ento tem um treinador particular.  claro que no vai poder praticar
esportes por enquanto, mas depois que o beb nascer, quem sabe? Os negcios mantm Kevin fora, muitas vezes, visitando construes. Vai ser bom se tiver seu prprio
crculo de amigos. Quando encontrarem uma casa, aconselho-a a ficar scia de algum clube. Talvez leve algum tempo para adaptar-se aos hbitos americanos, mas no
v se isolar, como eu fiz quando me casei pela primeira vez. Meu marido viajava muito e eu ficava sozinha com o filho. E, no seu caso, ainda h a sua profisso que
tambm  solitria. Os conselhos de Sophia eram teis e prticos, refletiu Lucy, contente, ao perceber que a tia e sogra estava preocupada com seu bem-estar.
      - Kevin nos contou sobre o pequeno problema de sade que est passando - comentou ela, caminhando em direo a uma das inmeras portas. - Esta  a sute -
anunciou, dando passagem para Lucy.
      Como a sala de estar, o quarto era decorado em tons claros de amarelo e azul, com estampas floridas, decorao tipicamente britnica.
      - O estilo ingls anda muito em moda por aqui explicou Sophia. - Mas confesso que foi mais a nostalgia do que a moda que me fez decorar o quarto assim.
      -  linda! Exclamou Lucy, encantada, at que seus olhos pousaram na imensa cama de casal.
      Ao v-la, engoliu em seco. Sabia que a famlia de Kevin no estava a par da realidade de seu casamento, porm, de algum modo, esperara encontrar camas separadas.
      - O banheiro  ali - continuou a me dele, apontando uma porta. - J que vo ficar apenas uma noite, vou dizer a Helena para no desfazer suas malas. Kevin
me disse que vo ficar em seu apartamento at encontrarem um lugar mais adequado. - Ela sorriu, simptica. - As meninas viro almoar conosco amanh, para conhec-la.
Bem, chega de conversa. Deve estar cansada de me ouvir falar... Vou deix-la a ss, agora.
      Antes de sair, Sophia deu-lhe um beijo no rosto, apertando-lhe o brao, para lhe dar coragem.
      - Estou feliz que Kevin tenha se casado com voc, filha. Ela parou, ao ver os olhos castanhos marejados de lgrimas.
      - Alguma coisa errada, querida? No est se sentindo bem?
      - No... Tudo bem. S estou emocionada com sua ateno. Lucy murmurou com a voz embargada. - Pensei que fosse ter raiva de mim, principalmente depois de tudo
que meu pai fez a Kevin.
      - George era meu irmo, no se esquea - lembrou a tia. - Conhecia-o muito bem. Nunca nos demos... No entanto, gostava muito de sua me: era uma pessoa adorvel.
- Ela suspirou com a expresso sria. - Devo lhe confessar que no fiquei muito feliz quando soube o que seu pai havia feito com o solar, porm, de certo modo, j
esperava por isso. George sempre teve uma certa obsesso por aquela casa. Deve ter ficado muito desapontado quando teve outra filha no segundo casamento.
      Lucy comeava a sentir os efeitos da longa viagem. Estava exausta e a recepo calorosa da me de Kevin a fez esquecer que estava grvida.
      - Sim - respondeu - principalmente por Oliver ter nascido antes que ele e Fanny... Mordeu os lbios ao perceber o que havia dito, sentindo o remorso subir-lhe
 face.
      Sophia olhou-a intrigada:
      - Est querendo me dizer que Oliver  filho de George? Lucy engoliu em seco, nervosa. Agora no havia mais como recuar. Balanou a cabea, concordando.
      - Foi por isso que vendeu tudo o que podia do solar. Queria garantir o futuro do filho. Queria reconhec-lo como filho legtimo, mas Fanny no deixava. Minha
madrasta tinha medo do escndalo que a histria poderia provocar. Acho que nunca entendeu o amor que meu pai tinha por aquela casa e no via vantagens em Oliver
herd-la, principalmente depois que papai o deixou to bem financeiramente.
      - Se Oliver fosse legitimado, teria condies de manter o solar? Indagou Sophia.
      - No - Lucy respondeu com honestidade. - E acho que, no fundo, meu pai sabia disso. Se houvesse vivido mais tempo, iria acabar tendo que vend-lo, ou ento
v-lo deteriorar ao seu redor. A estimativa, apenas para o reparo do telhado, era de duzentas e cinqenta mil libras, muito mais do que papai conseguiu com o que
pde vender.
      - Kevin pretende mant-lo e restaur-lo - Sophia disse, sria. - Graas a meu marido,  um homem muito rico. Os dois entendem como ningum de tudo o que se
refere  indstria da construo e so muito, mas muito unidos. Mais do que se fossem pai e filho de verdade. - Ela sorriu, fitando Lucy. - Fico feliz por Kevin
a ter conhecido, querida. Andvamos preocupados com Kevin, querendo v-lo com uma esposa e uma famlia, mas ao mesmo tempo preocupados que ele se interessasse pela
pessoa errada. Entende, no ? Teve muitas namoradas, algumas at srias, contudo esta  a primeira vez que o vemos apaixonado. Ficou bvio quando voltou da Inglaterra
para resolver o problema na construo. Alm do mais, sabamos sobre voc pelas cartas que escrevia e telefonemas que nos dava. - Sophia sorriu. - Vou deix-la a
ss agora. Daqui a pouco o jantar ser servido e nem estamos prontas.
      Sozinha na sute, Lucy ficou parada ao lado da janela, pensativa. No sabia que Kevin falara dela para a famlia. Se pretendesse se vingar pelo que havia sofrido
naquele vero, no teria feito nenhum comentrio.
      Estava intrigada. No! Com certeza, falara dela apenas porque a me mostrara-se curiosa para saber da sobrinha.
      Dizendo a si mesma que aqueles pensamentos s iam reativar esperanas que sabia infundadas, suspirou, remexendo a mala  procura do vestido de jrsei que usaria
no jantar.
      J havia tomado banho, e estava vestida e maquilada, quando Kevin entrou no quarto.
      - No desfiz suas malas porque no sabia se iria querer - ela falou em voz baixa, vendo-o abrir a bagagem.
      Quando ele escolheu uma cala de linho bege e camisa de seda branca, percebeu que tinha acertado ao vestir-se formalmente para o jantar.
      Eles dois formavam um casal muito bonito, pensou mais tarde, ao ver seus reflexos no espelho do quarto. Porm no eram exatamente um casal. No no verdadeiro
sentido da palavra. Apenas duas pessoas unidas pela responsabilidade da nova vida que haviam concebido.
      A conversa durante o jantar foi agradvel e interessante. Sophia revelou-se uma anfitri espetacular. Nem por um momento Lucy sentiu-se deslocada ou pouco
 vontade. Sua gravidez foi assunto vrias vezes e a me de Kevin encarava seu problema com tanta naturalidade, que sentiu suas apreenses diminurem.
      Aliviou-se quando Sophia sugeriu que fosse dormir cedo, pois s com muita fora de vontade evitou bocejar na frente de todos.
      Certa de que Kevin permaneceria com os pais, pediu licena, tomando a liberdade de dar um beijo de boa-noite na sogra. Quando passou pela cadeira de Kevin,
sorriu para ele tambm, tentando no demonstrar o quanto estava tensa.
      - No vou demorar - avisou ele. - Tambm estou cansado.
      Enquanto Harry fazia um comentrio, acusando-o de no ter um pingo de romantismo para um homem recm-casado, Lucy escapou da sala.
      Uma vez dentro do quarto, encostou-se na porta, suspirando. Pelo menos teria alguns minutos para se preparar para o que vinha a seguir.
      Tomou um banho rpido, escovou os cabelos e deslizou, deliciada, para debaixo dos lenis de cetim. Sentia-se exausta e o corpo dolorido pela tenso. Nem mesmo
o medo pela chegada de Kevin impediu que adormecesse.
      O rudo da porta se abrindo, e depois fechando, despertou-a de seu leve sono. Mais tarde, ouviu o barulho suave e montono do chuveiro. Depois a sensao do
colcho cedendo a seu lado, o roar dos lenis e um perfume muito familiar...
      Instintivamente, virou-se na cama, buscando abraar o perfume, aninhando-se num corpo quente. Aconchegou-se nele, o sono tornando-se mais profundo sob o calor
e a segurana que encontrara.
      Tenso, Kevin tentou empurr-la. Porm, ao ver o rosto sereno e os lbios cheios numa expresso infantil, no teve coragem.
      Acomodou-a junto dele, com os braos envolvendo aquele corpo macio e frgil, antes de fechar os olhos.

     CAPTULO X
      "...E em ns que  tudo.  ali, ali, Que a vida  jovem e o amor sorri"
      Lucy sonhava.
      Em seu sonho estava nos braos de Kevin, fazendo amor com ele. Cada vez que ele a tocava, sentia a pele se arrepiar de prazer. O que fazia com ela era delicioso,
e gemia, querendo mais...
      Estendeu a mo, precisando toc-lo, querendo mostrar o quanto o desejava. Sentiu os msculos firmes, a pele quente e macia.
      O sono fugiu de repente, a sensao de ter algum sob os dedos era muito real para ser apenas um sonho. Quando abriu os olhos, o pnico a invadiu. Estava nos
braos de Kevin, a luz fraca da aurora penetrando pela janela.
      Como uma criana assustada, tirou as mos do peito largo, com medo at de respirar. O que estava fazendo?
      No mesmo instante, percebeu que Kevin estava nu, o tecido fino de sua camisola era a nica barreira entre eles.
      Aflita, tentou se afastar, temendo que despertasse. Porm, no minuto em que se moveu, sentiu o brao dele apertar-se ao redor de sua cintura, os olhos cinza
abrindo-se, alertas e brilhantes, para fit-la:
      - Solte-me! O que est fazendo? Exclamou, em pnico.
      - Foi voc quem comeou... Kevin se defendeu. - Aninhou-se em mim feito uma gatinha querendo ser acariciada.
      Lucy estava nervosa, imaginando a intimidade da cena. Sentiu o rosto pegar fogo. Teria feito isso mesmo?
      - Acha que estou mentindo? Ele indagou, divertido. Por que ele iria mentir? Que interesse teria nisso? Ela balanou a cabea, nervosa.
      - Desculpe, eu...
      - No precisa se desculpar - a voz de Kevin saiu rouca. - Sou homem o bastante para gostar de ter uma mulher abraada em mim... Mesmo que ela esteja dormindo.
      Ele sorria, observou Lucy, incrdula. E desta vez no havia sarcasmo ou ironia em sua face.
      Prendeu a respirao ao ver os olhos dele cheios de desejo.
      - Claro que gostaria muito mais se no estivesse usando isto - murmurou em seu ouvido, os dedos tocando as alas da camisola.
      Precisava se afastar dele. Tinha que tentar! Mas Kevin j baixava o tecido sedoso e os olhos pousavam em seus seios, famintos.
      - Lucy...
      Ela umedeceu os lbios, sentindo-os repentinamente secos.
      - Deixe que faa isso... disse rouco, mirando a boca rosada.
      Era um sonho... Principalmente aquelas mos tremulas em seu corpo, os lbios que acariciavam os seus, umedecendo-os, repartindo-os.
      Lucy gemeu, entregando-se ao beijo faminto, os dedos mergulhando nos cabelos densos e sedosos de Kevin, sentindo nele a resposta para o desejo que a consumia.
      Aquilo no era real, pensou. Portanto no precisava lutar nem resistir. Nem esconder o amor que agora brotava forte em seu peito.
      As mos dele seguraram seu rosto, agarraram-se a seus cabelos com desespero, como se no quisessem quebrar o encanto que os envolvia.
      Sem parar de beij-la, Kevin jogou longe o lenol e, instintivamente, Lucy moveu-se de encontro a ele, ansiando por senti-lo junto dela. Os seios intumesceram
contra o tecido fino e transparente da camisola rendada.
      Quando Kevin afastou a boca da dela, Lucy teve vontade de gritar. Estendeu o brao, tentando pux-lo de volta; desistindo apenas quando a cabea dele mergulhou
em seu peito com a boca fechando-se ao redor do mamilo trgido. Arqueou o corpo, segurando-o contra si convulsivamente.
      - Lucy...
      Na voz ela reconheceu a extenso do desejo de Kevin, o corpo forte e viril estremecendo contra o dela.
      - Eu no devia estar fazendo isso...
      Quase no pde ouvir as palavras abafadas. Ele a queria, pensou, atordoada. Kevin no tinha como fingir.
      O fato de poder deix-lo naquele estado, acabou dando-lhe alguma esperana. Talvez ainda pudesse fazer com que a amasse. Quem sabe pudesse contar toda a verdade,
desfazer a trama que ela mesma construra, dizendo que jamais aliara-se a Fred?
      Apesar do que havia dito, Kevin no se moveu, acariciando-lhe os seios com a lngua. Ondas de prazer cortavam-lhe o corpo. Era como se fogo, em vez de sangue,
lhe corresse pelas veias.
      - Se acha que no devia fazer isso por causa dele... ela conseguiu dizer, ofegante.
      - Dane-se Fred! Explodiu Kevin, erguendo a cabea para fit-la transtornado. - Est casada comigo, no com ele! Fred no quer voc, Lucy! No como eu a quero!
      Lucy o olhou, perplexa.
      - Eu estava pensando no beb... No que o doutor me disse - continuou ele. - No em Fred.
      Lucy baixou os olhos, o corao aos saltos. O mdico lhe tinha dito que no havia razo para no manter uma vida sexual normal, pelo menos at os ltimos estgios
da gravidez.
      Mas no foi isso que a fez olhar para Kevin, o rosto iluminado por uma nova e estranha emoo. Ele havia dito que a queria.
      - Voc... Voc me quer? Repetiu as palavras devagar, saboreando-as, olhando-o, fascinada.
      Kevin devolveu o olhar, erguendo-se sobre um cotovelo.
      - Sei que sou o primeiro homem a fazer amor com voc, Lucy, mas no  possvel que seja to ingnua... disse, contrariado. - Sabe muito bem o que faz comigo.
      O olhar dele pousou nos corpos nus, ainda entrelaados, e Lucy sentiu o rosto pegar fogo.
      - Voc me queria mesmo... mesmo antes de me mandar embora?
      Era uma pergunta que seu orgulho devia ter impedido, mas as palavras saram, sem que pudesse evitar.
      Kevin rolou para o lado, fazendo-a querer preencher o vazio entre eles. Num impulso, aproximou-se dele, devagar, olhando-o, receosa.
      Ele a fitou, intrigado.
      - Sabe que sim - murmurou. - Acha mesmo que eu teria feito amor com voc como fiz s por...
      - Vingana? Completou Lucy.
      - Vingana? Kevin repetiu, balanando a cabea, desnorteado. - Eu s estava morto de cime.
      Ela estava estupefata.
      - Pensei que quisesse me punir por... por tudo.
      Ele sentou-se na cama, sem desviar o olhar dela. Os primeiros raios de sol iluminavam o quarto, trazendo a promessa de um novo dia. Quem sabe uma nova vida...
      - Acho que precisamos conversar - falou, srio. - Diga-me s uma coisa: o que Fred Summers significa para voc?
      - Nada - Lucy respondeu, segura. - Eu j lhe disse isso antes, mas no acreditou em mim. Ele  meu primo, adoro os pais dele. Mas descobri o verdadeiro carter
de Fred h muito tempo.
      Kevin a fitava, atentamente.
      - Quando ele veio me ver naquela tarde - continuou ela - tentando me chantagear e obrigar a ajud-lo, meu primeiro impulso foi dizer no. Mas ento raciocinei
melhor e vi que, se fizesse isso, no ficaria sabendo de mais nada. Enquanto, se fingisse querer ajud-lo, descobriria mais sobre seus planos.
      - Mas no me disse nada que Fred havia ido at l. Kevin lembrou, calculista.
      - Porque me pareceu muito preocupado - Lucy disse, ansiosa. - Eu no queria aborrec-lo. E lhe falei isso, no foi?
      - Sim - concordou Kevin, confuso. - Estava to louco de cime que no sabia em que acreditar. Tudo o que conseguia pensar era naquele vero e no modo como
Fred a havia encorajado a me rejeitar. Ele sabia que me sentia atrado por voc, Lucy. At caoou de mim por isso. - Ele sorriu, amargo, ao ver a expresso incrdula
dela. -  verdade.
      Lucy balanou a cabea, perplexa.
      - Bem que eu imaginei que... que podia estar com cime e por isso me tratava daquela maneira.
      - Por que me fez acreditar que havia se aliado a Fred novamente? Kevin quis saber, angustiado.
      - No me conformava de voc ter feito amor comigo e depois... depois me acusar de ter algo com meu primo.
      - Lucy... Ele a puxou para si, pousando a cabea dela em seu peito. - Ser que  tarde demais para comearmos de novo? Para demonstrar nossos verdadeiros sentimentos?
Afinal, desejamos um ao outro. Isso est mais do que claro.
      - Desejo no  amor... ela falou, sem coragem de erguer os olhos.
      - No - concordou Kevin, aps um minuto de hesitao. - Mas enquanto um de ns amar ao outro...
      Lucy sentiu os msculos se retesarem, e se afastou dele. Ento Kevin sabia, todo o tempo, que ela o amava...
      - Est certo - murmurou, nervosa. - Admito que te amo, Kevin. Mas...
      - Hei, espere um pouco! O que quer dizer com "admito que te amo"? Kevin a olhava, como se no acreditasse no que estava ouvindo.
      - Exatamente o que eu disse - ela retrucou, com raiva, odiando o sorriso que curvava os lbios dele e o brilho de prazer nos olhos cinza. - Com certeza sempre
soube disso e eu...
      - No, Lucy... No sabia! Por que acha que senti tanto cime de Fred?
      - Mas disse que... Lucy franziu a testa, confusa.
      - O que eu disse foi: "enquanto um de ns amar o outro..." Porm estava me referindo a mim mesmo, no a voc!
      Por vrios segundos, ela o olhou, boquiaberta.
      - No pode me amar... Foi embora sem dizer nada, e no tentou entrar em contato comigo. Se no tivssemos nos encontrado no solar, voc...
      - Eu teria virado a Inglaterra de cabea para baixo  sua procura - disse, com a voz carregada de emoo enquanto a envolvia nos braos. - Estava a caminho
da casa da fazenda, naquela noite, quando recebi o telefonema. Eu no podia acreditar que tudo o que havia dito era verdade. Minha me estava to apavorada com Harry
que no tive tempo de procurar voc para esclarecer as coisas. Acho que, no fundo, sabia que havia mentido. E eu mesmo estava chocado com o que tinha lhe falado...
Tudo por cime. Queria falar com voc, mas no era um assunto que se pudesse tratar por carta ou telefone. Tentei voltar o mais cedo possvel e, quando cheguei,
voc partira para Londres. - Ele soltou um longo suspiro. - Foi como um golpe no estmago. Cheguei  concluso de que no queria mais nada comigo. Que, no fim, estava
certo em pensar que amava Fred. No imagina o que foi para mim fazer amor com voc achando, todo o tempo, que estava pensando nele. - Kevin fechou os olhos, angustiado.
- Tentei dizer a mim mesmo que no a amava, que vivia melhor sem voc... contudo nada adiantou. E, de repente, seu tio me liga para contar sobre o beb...
      Lucy arregalou os olhos e Kevin sorriu.
      - Parece que conseguiu meu telefone com Patterson - continuou. - Contou-me tudo... Menos que me amava. E voc esperando um filho meu... Os olhos dele brilharam.
- No mesmo instante, eu soube o que iria fazer. Tentei me convencer de que me casaria s por causa da criana. No fundo, sabia que no era verdade. No fui ao solar
naquela manh por acaso. J havia voado para a Inglaterra determinado a no perd-la mais de vista, at que concordasse em se casar comigo. Acredite, Lucy, se no
fosse pelo estado de sade de Harry, estaria de volta aos meus braos naquela mesma noite, ouvindo o quanto a queria e a amava.
      Ela o olhou com adorao, os lbios cheios formando as palavras sem, no entanto, pronunci-las.
      - Voc me ama mesmo? Indagou, por fim, como uma criana que acabara de ganhar um lindo presente.
      -  melhor acreditar - Kevin sorriu. - No sei como no ficou sabendo pela minha me. Eu tinha dito a ela, h muito tempo, que havia encontrado a garota dos
meus sonhos.
      - H muito tempo? Lucy franziu a testa, intrigada. - Mas s nos conhecemos h poucos meses!
      - H doze anos - ele corrigiu.
      Lucy abriu a boca, incapaz de dizer uma s palavra.
      - Fiquei louco por voc naquele vero, Lucy. Te amei desde o primeiro minuto, embora nem eu mesmo soubesse disso. Quando voltei ao solar, aps a morte de seu
pai, cheguei a ficar assustado. No me conformava com o que estava sentindo. Achava impossvel que pudesse me abalar depois de tantos anos... Kevin sorriu, os dedos
alisando o contorno dos lbios dela. - Quando soube o que seu pai tinha feito com o solar, tive dvidas. Confesso que fiquei com medo de que fosse se tornar igual
a ele. Mas... No sei... Mesmo h doze anos, havia percebido que, por detrs do desdm com que me tratava, havia algum interesse.
      Lucy baixou os olhos, sorrindo, encabulada.
      - Era muito diferente do que tentava demonstrar, Lucy. Ela ergueu a cabea, os olhos fixos nos dele. Precisava contar a verdade sobre Oliver. Quem sabe Kevin
mudasse um pouco de opinio a respeito de seu pai.
      Contudo, deixaria isto para mais tarde. Tudo o que queria agora era estar nos braos dele, sentir aqueles lbios moverem-se, torturantes, por sua pele, aquelas
mos percorrendo, sem pressa, as curvas de seu corpo.
      Kevin amava-a com abandono, deixando-a embriagada com seus toques e carcias.
      - Vamos comear tudo de novo... sussurrou em sua boca, em meio a pequenos e deliciosos beijos ...como se houvssemos nos conhecido hoje.
      Ele ficou tenso ao ver Lucy balanar a cabea, apoiando-se nos cotovelos para fit-la, interrogativamente.
      Lucy devolveu o olhar, radiante, ao perceber o medo e a vulnerabilidade daqueles olhos cinza.
      - Se fizermos isso - disse, baixinho - vou estar deixando de lado a noite mais importante da minha vida... ela acariciou o ventre, com o corao aos saltos
ao ver a emoo estampada no rosto moreno de Kevin.
      - Est certa... disse, mas vamos passar muitas, muitas outras noites juntos.
      - Pensei que estivesse zangado comigo por eu ser virgem - sussurrou Lucy, fechando os olhos ao sentir os lbios dele em seu pescoo ...que pensasse ter cado
numa armadilha, sendo obrigado a assumir um relacionamento muito mais srio do que queria.
      - No... Kevin a fitou. - Por incrvel que parea, fiquei com raiva porque acreditava que amava tanto Fred, que no havia sido capaz de se entregar a nenhum
outro homem. Eu sabia que nosso primo no gostava de voc, e me senti como... como um substituto, entende? Achei que, quando a tocava, voc pensava em Fred.
      Olharam-se por alguns segundos, como se questionassem a razo do destino os ter mantido separados por tanto tempo.
      Tantos desencontros, tantas dvidas, escondendo um amor que prometia no morrer nunca.
      Kevin baixou a cabea, os lbios pousando nos seios trgidos, a lngua acariciando lenta e sensualmente o corpo da mulher que amava.
      Ondas de prazer invadiram Lucy, o langor que a envolvera at ento cedeu  fora do desejo e, ofegante, moveu o corpo contra o dele, num convite irrecusvel.
      Kevin suspirou, abraando-a com fora, como se quisesse tatu-la na pele. Nada os separaria agora.
      Amaram-se com loucura, com liberdade, sem medo. O tempo parecia pouco para que se conhecessem, para que pudessem decorar cada detalhe um do outro.
      Era amor. No tinham mais dvidas.
      Sorriam, brincavam, falavam dos planos, dos sonhos... Precisavam recuperar o tempo perdido.
      - Eu queria ficar assim o dia inteiro - murmurou Lucy, os olhos brilhantes, os lbios acariciando os ombros largos do marido.
      - Se pudssemos... Kevin sorriu, entristecido. - Daqui a pouco minhas irms vo chegar com as famlias. Vai ver que, perto delas, mame fala pouco.
      Lucy sorriu, bem-humorada.
      - Sua me  uma pessoa maravilhosa.
      - Eu sei. - Kevin soltou um longo suspiro. - Pensei que ficar com meus pais acalmaria meus nimos, mas... Ele deu de ombros. - Se no tivesse se enrolado em
mim feito uma gatinha manhosa, eu j estaria longe daqui a muito tempo.
      - Ah! Quer dizer que a culpa  minha? Lucy fingiu zanga, para depois dar-lhe um beijo.
      - A culpa  sempre da mulher - Kevin falou, malicioso, erguendo os braos para proteger-se do tapa que Lucy ameaou lhe dar. - Hei! Falei gatinha manhosa,
no gata selvagem! Exclamou, antes de pux-la para os braos mais uma vez.
      - Oh! At que enfim vocs apareceram! Falou uma bonita morena, quando, de mos dadas, Kevin e Lucy caminharam em direo ao grupo reunido perto da piscina.
      - Olhem s! Kevin ficou vermelho! Gritou, rindo do irmo. - Christie, agora no tem mais desculpa: est me devendo vinte dlares.
      Kevin ficou contrariado e Christie abriu um sorriso, enquanto ambas se aproximavam para abra-los.
      - Lucy... continuou Meryl, falante. - Vai ter que me contar direitinho como conseguiu agarrar meu irmo.
      Lucy sorriu, embaraada.
      - Muito simples... Kevin respondeu por ela, os olhos fitando-a com adorao. - Foi com amor.
      O modo como ele a olhou a fez tremer, desejando que ainda estivessem a ss.
      Mas os gritos e risos das crianas e o murmrio da conversa dos adultos quebraram o encanto que os envolvia.
      Ali comeava uma vida nova, refletiu Lucy, observando Kevin conversar com o padrasto e os cunhados. Parecia relaxado e feliz.
      De agora em diante, seriam uma famlia, ligada por respeito e carinho, onde o elo mais importante seria o amor que nutria por aquele homem.
      Acariciou o ventre emocionada. Seu filho teria enfim o amor e a dedicao a que tinha direito.
      - Conte-nos tudo sobre o solar - pediu Christie, interrompendo seus devaneios. - Estamos morrendo de curiosidade.
      Lucy sorriu, e comeou a falar. De sbito, como se arrastada por uma fora invisvel, voltou a cabea. Kevin sorria para ela, como se acabasse de achar o mais
rico tesouro.
      - Hei, vocs dois! Brincou Christie. - Desse jeito vamos ficar com inveja!
      No jardim ensolarado, os olhos se encontraram. Lucy estremeceu, compreendendo a mensagem que enviavam.
      Amava e era amada. A vida no podia ter-lhe dado melhor presente.

      P.S.: A poesia usada no romance  "No sei se  sonho" de Fernando Pessoa.

??

??

??

??




Penny Jordan                Interldio de Amor




1

